A Cabeça de Baixo ou elogio do 30º dia

[Foto © J.P.Sousa, 2006, No Molestar]

Eu que tanto prezo o corpo e sou um defensor da liberdade de cada qual dispor do seu corpo como entender, tenho tratado sexualmente o meu da pior maneira. Não tenho ligado nenhuma ou posto sempre para terceiro lugar a Cabeça de Baixo. E ela vinga-se: destreinada, não sabe que fazer quando lhe aparece um bicho qualquer. Ou fica tão maluca que se despacha num instante.
Não fodo ( e teria fodido bem? pelo menos, não tanto como ela desejaria, mas também arrebentava comigo em oito dias , tal como o Júlio Caldeireiro, sem saber nada ou prever o que depois nos aconteceu, logo me declarara: «um tipo da minha idade e uma fulana daquelas com 30 anos e cheia de tesão, foda-se!- fazendo várias tomas - dava cabo de mim»...), não fodo desde a Maria Franco, a Mocha, e a última vez parece-me que foi na noite de 30 para 31 de Dezembro de 1972, vai ano e meio e mais passado. Com rapazes, aquela merda (um broche inacabado com o gordo de Massamá e uma ou duas noites com o Luisinho de Tercena, em que também, que me lembre, foi tudo triste e fracassado). Depois da última, resolvi parar com as punhetas. Ou o órgão desiste e está tudo certo; ou insiste e tenho de procurar bicho. Reservar verba no meu orçamento.

Excerto de 7/6/73 de Luiz Pacheco, Diário Remendado, Lisboa: D. Quixote, 2005

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