Desafiómetro à la f word

Esta é a resposta da the f word ao Desafiómetro "O futuro é já aqui"


Será asséptico, o futuro? (E se sim, onde esconderemos as nossas merdas não-incineráveis?)

Chegou. Deixou o veículo deslizar suavemente e fê-lo imobilizar-se com precisão na sua vaga de parqueamento. Saiu do silo e dirigiu-se célere para a campânula de transporte. ‘Trezentos e vinte sete’, disse, num tom de voz baixo mas firme e sentiu-se ascender rapidamente.

Detestava aquele lugar, aquele planeta Pi 45, tão primitivo, aquela estação, aquele bloco de apartamentos em que a Empresa a tinha alojado. ‘Trezentos e vinte sete’, declamou a voz metálica, no momento em que a porta rodou para o lado esquerdo, permitindo-lhe a saída. Percorreu absorta os escassos metros até ao apartamento e pôs-se a jeito para a leitura óptica. Ao entrar, lançou um olhar rápido em direcção ao detector térmico, que mostrava o eterno tom azul neutro sem oscilações.

Correu os primeiros centímetros do fecho do uniforme isolador, abriu a viseira do elmo, desligou o fornecimento de oxigénio. Entrou na câmara de desinfecção e começou a seleccionar a temperatura e os aromas. Um ruído inesperado fê-la parar, alerta, o dedo imóvel a flutuar na frente do painel.

Não conseguia identificar os sons. Surpreendia-a o facto de os ouvir. O silêncio, ali, era o default. Apurou os sentidos. Encaminhou-se hesitante para a conduta de extracção de detritos e filtragem de ar e baixou a escotilha cuidadosamente.

Uns bons metros abaixo, numa das plataformas da conduta, equilibravam-se dois sub-seres do quadrante 13, trazidos pela Empresa para os trabalhos de perfuração do solo e instalação das plataformas subterrâneas. Retirou rapidamente a cabeça da escotilha e ali ficou, imóvel, o coração a pulsar-lhe de curiosidade e nojo. Lentamente, voltou a espreitar.

As criaturas primitivas movimentavam-se num bailado estranho que a intrigava. No espaço exíguo, a fêmea encaixava-se na zona ligeiramente abaixo da cintura do macho, uma perna arranhada e suja apoiada na parede da conduta, outra cingia o dorso entroncado, um pé imundo a pressionar-lhe a nádega. As mãos dela apoiavam-se na parede, escuras e nodosas, a arranhar as placas metálicas da conduta, mais ou menos ao mesmo nível em que as patorras dele, enormes e venosas, se lhe afundavam nas nádegas.

A estranha dança parecia provocar neles uma espécie de delírio estático. Moviam-se em espasmos rítmicos mas desarticulados, num crescendo violento que as criaturas acompanhavam de sons roucos e guturais, um arremedo de guinchos que ressoavam num ponto indefinido do seu cérebro e despertavam nela uma inquietação e uma agonia inusitadas.

Fechou a escotilha e saiu numa marcha-atrás atabalhoada. Passou alheada pela câmara de desinfecção e encaminhou-se para o dispositivo tubular de repouso assistido. Programou rapidamente o seu descanso. Dormir. Não pensar. O écran mostrava HORAS DE SONO. Marcou seis. Bem precisava delas, teria um turno difícil no dia seguinte. Seleccionou o item SONHOS. Ainda pensou em escolher SEM SONHOS. Mas não. Algures no seu corpo, plena de uma familiaridade inexplicável, a estranha cena ainda pulsava. Escolheu, sem razão plausível, PAISAGENS COM NEVE. Adormeceu em segundos.

The F Word

[Foto © Patrick Demarchellier, 2000, Karen Elsen]

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