Fantasmas



Despia-me vagarosamente quase em adoração como quem veste uma santa para o andor em dia de procissão e tocava-me tão ao de leve com as pontas dos dedos como se o assolasse o medo de me partir que até quando me puxava lustro aos mamilos nunca sabia se era o seu dedo ou uma picadela de mosca.



No seu ritual de acasalamento estendia-me na cama e espalhava-me os cabelos longos pelo branco dos lençóis para depois pairar sobre mim quase sem peso numa distribuição de beijos do pescoço aos pés como quem beija a imagem do menino Jesus. E pegava-me na mãozinha para a pousar na sua alfaia de culto entumecida e a guiar para o interior dos meus grandes e pequenos lábios onde se derramava em arroubos saltitantes.



Há muito que o seu carinho de me tratar por filha e bebé me friccionava a moleirinha e apesar de ele cumprir religiosamente a regra de baixar a tampa da sanita e seguir à risca a lista de compras do supermercado tive de lhe dizer que já não aguentava a situação de viver em bigamia com os seus delicados fantasmas.




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