O rato e os tomates



Hoje começa o ano chinês do rato e podia fazer algumas alusões eróticas com a palavra mas esta semana fixei-me nas hortaliças e quero antes aqui prantar um poema dos Versos Brejeiros e Satíricos de António Maria Eusébio (entre 1819 e 1821 - 1911) , sadino conhecido como o Calafate, que sendo analfabeto cantava ao desafio em Setúbal com o guitarrista Carga de Ossos sempre pronto a improvisar com a sua veia satírica.


A Quinteira da Panasqueira
(...)
Resposta da Quinteira

Mote
Fui apalpar os tomates
que tinha o meu hortelão,
mostrou-me o nabal que tinha,
meteu-me o nabo na mão.

Glosa
Sou mestra na agricultura,
tenho terra para cavar,
gosto sempre de apalpar
se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
não são nenhuns disparates;
enchi alguns açafates
de tomateiros de cama,
depois de apalpar a rama
fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
nascem por dentro e por fora,
semeiam-se a toda a hora
dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
dão-me as ramas pelos joelhos;
que tomates tão vermelhos
que tinha o meu hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
faz andar a gente louca,
faz crescer água na boca
e a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos,
tem hortaliça fresquinha;
no vale da carapinha
tem um tomateiro macho,
abriu-me a porta de baixo
mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
tinha tomates graúdos,
tinha nabos ramalhudos
com as cabeças roliças.
Tão brilhantes hortaliças
meteram-me tentação;
era franco o hortelão,
deu-me uma couve amarela
para me dar gosto à panela,
meteu-me o nabo na mão.


(In Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica , Lisboa: Antígona/Frenesi, 2000)


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