Analfabetismo sentimental


Para ela ver o namorado lá fui de cambulhada para a terrinha com mais um primo dela que era quem havia mais a jeito para eu não fazer de vela e para nos guardar as costas na intrépida viagem de comboio que nenhum de nós ainda possuía a idade para ostentar carta de condução.

Era Páscoa e de manhã havia missa rematada com procissão e cavalinho dos bombeiros e tudo e à noite, baile no terreiro da aldeia abrilhantado por um daqueles conjuntos de música a metro interrompida de quando em quando para os leilões, barraca de rifinhas e muitas outras de comes e bebes com muita grade de cerveja encafuada nos bidões de gelo e todos os moradores a fazer de cerca para não perderem pitada de algum atrevimento dos seus rebentos ou dos seus vizinhos.

Ela não parava de dançar com o seu mais que tudo, sempre agarradinhos nem que tocasse um vira que o ritmo de namorar em carne e osso só nas férias escolares não é fácil. Eu e o primo assentámos arraiais no balcão de uma tendinha a escorrer garrafas do belo lúpulo pela goela abaixo e apesar de ter vestido uma camisola encarnada igualzinha à dela a alardear a irmandade não havia motivo para ninguém marrar connosco que o decote era subido.

O pai dela veio da barraquinha dos seus compadres até junto de nós e entreolhámos-nos no pensamento cúmplice de que lá vem sermão. Mas a sorrir ofereceu-nos mais uma para cada um e enquanto esperava o troco disse-me que como a esposa só chegava no dia seguinte ia deixar a porta do quarto aberta e depois da sua filha adormecer eu podia ir lá ter. Todo o chorrilho de asneiras que encobria saber perante os meus pais e os de todas as minhas amigas sairam-me em golfadas perante aquele homenzarrão grávido de gémeos de cerveja e de pelo menos 9 meses e só parei porque o bendito primo me arrastou num abraço para fora da festa e me deixou ensopar-lhe a camisola de lágrimas e soluços enquanto me repetia isto não fica assim, isto não fica assim.

[Foto © Blue Noses, 2004, The little men]

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