Da língua ao sexo é um pulinho


Não sei o que a boca tem de tão especial mas desde o início deste ano que se tem movido um cerco aos seus prazeres. Começou com a proibição de publicamente nela usar um cigarro remetendo este prazer para uma esfera o mais privada possível, quase clandestina. Depois, ora aqui ora além as tropas da ASAE privaram a boca do deleite de uns quantos produtos caseiros que só lá pode penetrar o que seja certificado e normalizado como um vulgar preservativo. E ontem um deputado do partido do governo apresentou um projecto de diploma para proibir o uso de piercings na língua.

Até sou da opinião que a colocação dos ditos deve doer como um empalamento que não era a filha da minha mãe que deixava espetar um prego em carne viva e que aquela bodega deve esfriar um niquito o sexo oral para além de me parecer tão estético como um palito ao canto da boca mas caramba, custa-me a aceitar que a minha boca e língua sejam propriedade pública passível de legislação. A cavidade bocal com o céu da boca incluído que os meus paizinhos fizeram o favor de me oferecer em herança não é matéria colectável nas finanças nem eles incluiram nenhuma cláusula sobre usos proibidos. E até o meu médico e o meu dentista apenas fazem recomendações sobre o que não deve entrar por ela adentro.

Não é querer ser má língua mas se esta moda pega, começam na língua, passam às mamas e em sentido descendente qualquer dia ainda me estão a especificar o que posso ou não entalar em matéria sexual, quais os orifícios que posso utilizar para o efeito e quais as posições normalizadas e certificadas que são aceites, tudo em nome da higiene e da saúde da nação.

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