A insustentável leveza do estômago

[Foto © Tom Sperduto, 2008]

Aquele bolo morangos e natas a sorrir para mim quebrou-me todas as resistências que evitariam a dentada. Só uma dentadinha. O chantilly parece veludo enquanto se dissolve na boca e fornece-me tanto conforto e satisfação quando desce ao estômago. É só um bocadito doce mas isso não é nada que não se resolva com um Mon Chéri. Ou dois, ou três. E já que estou com insónia o que vinha mesmo a calhar era um Irish Coffee que assim como assim não vou adormecer tão depressa.

Lá fora só as luzes da rua e um carro de quando em quando a esquecer-se dos semáforos pela falta de trânsito. Aqui, eu e o meu irlandês a beberricar. Talvez seja melhor ir buscar qualquer coisa para petiscarmos. O sedoso Camembert e o fiambre em fatias fínissimas, como se nos emagrecessem, ao contrário de mim que só engrossei pelos tempos afora. Mas que se dane, morra Marta mas morra farta. A companhia destas delícias para o paladar até me ajudam a acompanhar aqueles programas televisivos feitos à base de chamadas mas sem disquinho pedido no engodo de dar dinheiro.

Já deixei de me preocupar com a linha ou lá o que lhe queiram chamar, de só poder comprar roupa em lojas para gordos ou às vezes, na secção de homens que tem sempre números maiores porque este é o caminho ameno do suicídio pelo prazer. E pelo menos os bichinhos não se vão queixar que lhes falta carne por onde agarrar.


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