Surrealismos


Agora a esplanada está sempre a abarrotar de gente para o prazer de acompanhar o café com um cigarro após o almoço, em bandos barulhentos que executam um ballet de chávenas misturado com a dança dos cus de Cabanas de Viriato. Ele estava sozinho a rabiscar qualquer coisa entre os últimos sorvos da bica. Apesar da pele lisa e aveludada, dos cabelos negros e olhos de catraio devia ter uns cinquenta anos que os hábitos de vestir denunciam a geração e aquela camisa de quadradinhos era o carbono 14 do seu nascimento.

Arriscou meter conversa com a nossa mesa e foi distribuindo os desenhos que a sua caneta rapidamente imprimia nas folhas de papel numa inocência de dar sem medo das consequências que lhe brilhava nas pupilas. A criatividade era a sua fuga à prateleira laboral a que o haviam remetido ao invés de chamar cabrões a quem assim o torturava e crescia como esperança de mandar aquela situação para o caralho. Com os lábios húmidos explicou-me que escolhera o surrealismo como chapa do quotidiano enquanto me dava uma das suas obras.

De regresso ao trabalho, passei pela casa de banho e enquanto lavava as mãos vi-me ao espelho e naquele momento até me pareceu que estava bonita.

[Pintura: © Salvador Dalí, 1978, Dalí levantando la piel del mar Mediterráneo para enseñar a Gala el nacimiento de Venus ]

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