Sutra de cabeceira*


As memórias dos amores são como guarda-vestidos onde revemos as roupas que usámos outrora e não temos coragem de deitar fora como se fosse a extirpação de um rim ou da vesícula a que nos apegámos. Ou uma torre de cd's com as músicas que associamos a cada um e que se temos a veleidade de pôr a tocar consegue ser quase tão deprimente como um telejornal.

A nenhum disse amo-te muito como se fosse possível amá-lo pouco ou não o amar com todas as minha artérias do meu corpo porque os part-time, como se costuma dizer, não fazem o meu género. É possível o passatempo de colocar apenas o meu corpo para simples exercício físico caso em que para além dos sons guturais da praxe não me passa pela cabeça trocar palavras íntimas com o treinador. A cada um dos meus amores dediquei um glossário próprio e distintivo porque se há santos para a trovoada, para os impossíveis, para as causas perdidas e até há o Santo Expedito para as causas urgentes, nenhum deles merecia menos que um nome próprio e um conjunto de palavras pessoais e intransmissíveis.

O melhor amor é o que vigora na altura, nos ressonos e nas flatulências como na cumplicidade de nos sentirmos mais nós quando estamos despidos e nos percorremos com as mãos, as línguas e as bocas naquele frenesim que nos torna a endorfina de nós próprios e do outro. Aquele que no momento usa a língua também para falar e nos ajuda a limpar os armários.

* ou manual prático do que me leva aos arames



[imagem gentilmente enviada por São Veiga]

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