Torcido de pequenino


Nasci sem pepino a não ser que conte aquela coisinha pequenina que também se enfola e a que no calão tiveram o mau gosto de dar o nome daquela hortaliça amargosa com flores amarelas, geralmente proveniente de couves nabiças, vulgarmente conhecida por grelos. Contudo, como não sou alheia à actual exaltação das façanhas infanto-juvenis que provem que somos democráticos e combativos desde pequeninos, sobretudo se nascemos antes do 25 de Abril, julgo adequada a exposição do meu caso.

No dia do meu baptizado, aí à roda do ano de idade, mal o padre sem minha licença me despejou a água pela cabeça abaixo desatei num berreiro tamanho que os tectos altos da igreja barroca fizeram ecoar ainda mais o firme protesto contra as humidades não consentidas.

Pelos meus 4 anos tive a minha primeira experiência masturbatória com os dedos e a passagem repetida de um carrinho metálico do meu irmão embora muitos anos mais tarde alguns livros me tenham tentado convencer que essa acção era apenas a descoberta do corpo própria da idade. Recusei-me também terminantemente a usar as cuecas com folhinhos para aparecerem com as saias curtinhas como era moda, num claro protesto contra o uso do corpo feminino para gáudio dos olhares dos transeuntes mesmo que recorde que o me parecia absurdo era mostrar a cor da roupa interior quando os adultos não o faziam.

Todos os anos batia muitas palmas no dia do aniversário do meu pai porque se comemorava também a coragem daquela cadeira que nessa data tinha atirado o cu de Salazar directo e redondinho para o chão numa cena digna dos desenhos animados do Bucha e Estica que na altura a televisão transmitia.

E mesmo antes do 25 de Abril participava nas actividades lúdicas de um grupo de crianças e jovens onde consegui os meus primeiros namorados a quem dava uns beijinhos com os lábios esticadinhos tanto mais que já sabia de cor que a multa certinha como as uvas que o padre me aplicava era de 3 pai-nossos e dez avé-marias. O monitor do grupo ensinava-nos umas canções com nomes giros como Os Vampiros e Venham Mais Cinco e o nosso hino começava alegremente com somos filhos da madrugada, pela praia do mar nos vamos e aí, de facto, nada tinha a ver com sexo, nem nas mãos dadas das rodas que fazíamos enquanto cantávamos.

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