Ou vai ou racha


Habituei-me a fazer o luto de cada relação renascendo pelos cabelos para fama e glória do meu cabeleireiro. Já pintei o cabelo de ruivo, aquele menos vibrante e o cenourinha mesmo, usei o preto violino e o preto azul mais o preto azeviche e até o azul marinho por um breve período em que me armei em semáforo da atenção dos outros e só não usei madeixas por serem uma marca distintiva de quarentona nem o louro em nenhuma nuance para não me convencer que tinha aloirado de vez.

Com aquele da perdição por cabelos compridos esmerei-me. Ele excitava-se em descobrir-me os seios afastando-os do caminho das suas mãos, em agarrá-los na rédea da mão quando suava sobre a minha garupa, em amolgá-los contra a almofada quando me ensinava o padre nosso para lhe absorver a hóstia dos santos pirilaus. Até preferia uma alcatifa encaracolada no monte de Vénus talvez para não lhe escorregar a testa ou quiçá, para mata-borrão do suor.

E eu caprichava após cada desentendimento em cortar os cabelos. Primeiro no protesto por uma maior sensibilidade desbastava abaixo do ventre e depois passava à cabeça para os cortar cada vez mais curtos quase até ao pente 4. Só que no dia em que apesar de ostentar uns cabelos curtos com umas pontas compridas a baloiçar na frente da cara cuja rebeldia ele odiava tacteei uma força a crescer-lhe sob as calças e um sorriso indecente a nascer-lhe nos olhos e percebi que já me alojara na parte dele onde sempre quisera estar.


[Imagem © TracyJo,
Casablanca Bald]

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