Angústia para papar


Nunca mais me chamam gorda e vou provar a todos que sou perfeita, tão bonita e elegante como qualquer modelo. Comecei por meter constantemente dois dedos pela goela abaixo, por engolir muitos comprimidos para emagrecer mas agora é só muita águinha, com ou sem sumo de limão e um ou outro bago de arroz e sinto-me leve, tão leve como uma pena que nem lembro da antiga obsessão de comer. Nem daquela remota rotina de ir vazar os detritos na sanita, num esforço de caretas e arranhões no cu para depois puxar o autoclismo e abrir a janela para não criar maus cheiros que estou sempre limpa e perfumada. Já para não falar do que poupo em tampões e pensos higiénicos.

Há um pequenito senão. O meu namorado queixa-se que lhe falta carne para se agarrar e que as minhas mamas não são as arrufadas de outros tempos e já nem me descola o soutien de silicone para a ginástica coital com prejuízo dos meus mamilos se humedecerem na sua boca. Mas que se lixe que quando me olho ao espelho vejo o figurino que sempre quis ter e já nem ouço os elogios repetidos que ele faz à Kate Winslet ou à Scarletezinha, também porque, valha a verdade, cada vez sinto menos vontade desses exercícios repetitivos que ele para me picar chama concerto de ossos uma vez que metê-lo ou não, roçar aqui ou acolá me é igual ao petróleo que o prazer que tenho naquilo é o mesmo de ir a restaurante. Apenas menos angustiante porque não me engorda.



[Imagem: Escultura de © Carlos Rodrigues, Menina de parede, por gentil indicação de Paulo Vinhal]

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