O amante dos prazeres no elogio dos cozinheiros


Alfredo Saramago era uma amante dos prazeres da vida, das mulheres, das gastronomias, dos vinhos e dos charutos que partiu no passado dia 25.

Mas deixou-nos escritos sobre o prazer de estar vivo, dos quais destaco «Cozinha para homens - a honesta volúpia», cuja 2ª edição data de 1994 (é a que tenho aqui em casa, da Colares Editora) e da qual transcrevo

Nota para o Marido

Este livro, e particularmente este capítulo não se destina aos homens que entendem a cozinha como um "hobby". Também não é dirigido aos que se "desenrascam" com ela e muito menos aos que têm jeitinho.
Para os primeiros, que vêem a cozinha como um passatempo , da mesma forma como vão à pesca ou à caça, não tenho sugestões para dar, porque se trata de pessoas normalmente muito convencidas, instaladas numa sabedoria que não admite conselhos. Como não tenho em grande apreço os pintores de domingo, passo. Para os que se desembaraçam, tenho esperança que a imaginação que empregam na cozinha os leve a entender que podem um dia dar o salto, quer dizer, que deixem de brincar e levem a sério uma arte que por certo não é das menores.
Para os que têm "jeitinho", desejo que se endireitem, que fiquem com jeito e depois com arte para poderem cozinhar sem mariquices.
Não permita a condescendência da sua mulher, que em ocasiões certas ou de alguma conveniência o deixa ir à cozinha divertir-se. Imponha-se como oficiante respeitado, assumindo com as suas confecções o estatuto de cozinheiro.
Muitos homens aligeiram a sua presença na cozinha, com um pé dentro e outro fora, com medo que se vejam confundidos com maridos fracos, sujeitos impiedosamente a um ofício, que se entende como feminino.
Quando um homem diz que sabe fazer umas coisinhas, coloca-se deliberadamente no universo dos maridos de sala, que de vez em quando vão à cozinha, mas sem se sujeitar ao avental.

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