O operário das noites longas



Os dedos a pingar do pão encharcado da gordura boa das sardinhas e as bocas com o travo de vinho a granel a debicarem-se como mais um petisco daquela noite ao som de marchinhas populares.

O vozear da multidão e as estrelas que não se vêem na cidade tornam cálida a noite e os desejos lúbricos amarinham por nós como o vinho, altura em que nos escapulimos para o ringue de lençóis para mais um combate corpo a corpo, onde são permitidos todos os golpes abaixo da cintura com os punhos frenéticos, as bocas ávidas e os sexos palpitantes a empolarem-se em golpes frontais ou laterais para não cansar tanto e permitir a visão dos primeiros raios de sol a romper.

Após o knock out que nos esparrama ombro a ombro a enxugar a pele, olho-lhe o revestimento suave, os músculos habituados a abdominais a rodear-lhe o umbigo, o pénis informe como uma salsicha do talho salvo pelos pelinhos adjacentes como num courato e não descubro porque é que aquele corpinho resistente insiste em ser colaborador de uma multinacional que é um eufemismo para precário facilmente substituível por outro em vez de se dedicar antes a satisfazer quarentonas e cinquentonas não afectadas pela crise económica a troco de um acentuado aumento da sua conta bancária para garantir uma reforma precoce, risonha e sem dramas como a dos jogadores de futebol.

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