Revelação *

Jam Montoya , 1997]



Desde criança que o Manel, como todos lhe chamavam, era um gaiato levado do diabo. Brincalhão e travesso como ele não havia. Um dia, num lugar de hortaliça, que era onde na década de 70 do século passado se vendia criação na cidade, aproveitando a distracção da dona a arengar com as clientes, procedeu à libertação das galinhas e nunca aquela rua alfacinha vira tanta agitação e cacarejo.



Todavia, desde que a moça que lhe sacudia o pó em cada centímetro de epiderme insistia no casamento, tornara-se cabisbaixo. Virava a agulha para outra conversa, falava do tempo ou calava-se. Os olhos de esmeralda dela não descolavam dos seus e qualquer pretexto era bom para os seus lábios carnudos e molhados voltarem ao assunto.



Até que como uma pedra, ele atirou um dia que podiam avançar desde que fosse na igreja, perante o espanto arregalado dela que sempre o conhecera ateu convicto. Ele contorcia-se nesta revelação como se todos os órgãos internos tivessem vazado para as suas mãos e repetia que era a única possibilidade. E quase num sussurro, confessou que não queria que soubessem todo o seu nome e no registo civil praticavam essa ignomínia. Trémulo, sacou o bilhete de identidade e pela primeira vez lhe mostrou a traseira do cartão onde ela leu Angélico Manuel Encarnação dos Santos.








[* versão revista de Revelação]

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