O êxtase do olhar



Fiz a catequese toda de fio e pavio e como os outros lá levei com a banalização da cópula naquela história do Adão e Eva que afincadamente vincava o lado animal da coisa personificado na marota da serpente. Depois ainda me encheram os ouvidos com mais uma banalização do acto, mas desta vez sacralizando-a na Virgem Maria que através do Anjo Gabriel concebeu sem pecado.

Observando os adultos de então quis-me parecer que cada um usava uma ou outra, ou até as duas, recatadamente e sem muito alarde para a tornar uma coisa especial assim como o êxtase do final de qualquer conto de fadas que se preze e apesar de já ser adulta creio firmemente que neste particular a tradição ainda é o que era.

E confesso que me sinto feita num molho de brócolos porque não me quero vulgarizar como uma qualquer princesa de história de encantar e conceder ao coito o estatuto de passe social para viver feliz para sempre. Prezo muito a minha sanita que nas horas de aflição dá vazão aos movimentos instintivos para atingir o prazer divinal do alívio. Sou uma aficionada da gastronomia tanto por me saciar a fome como para praticar os rituais de deleite com as iguarias. Entrego-me à escrita com o primitivo instinto de comunicar e a paixão sagrada de fazer nascer com as minhas mãos e o meu corpo todo algo diferente de mim. O meu êxtase é olhar em redor e absorver até à última espinha.

[imagens gentilmente patrocinadas pela Durex]

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