Uma questão de pronúncia*



O 23, Senhor Doutor?!... Se lhe parece, Senhor Doutor, vamos lá recapitular!... O que me excitava nele... era a forma como manejava as palavras, ou será que eu devia dizer manipular?... Bem, adiante. Também me excitava a forma como ele pronunciava Vou sugar-te os biquinhos enquanto me atarrachava os seios, como meias laranjas no espremedor da Moulinex. Ele falava o tempo todo, antecipando o que ia fazer, o que fazia, o que sentia. Dizia muitas vezes Eu adoro essas mamas ou Adoro como me chupas e me olhas nos olhos e aquelas palavras expressas de forma arrastada, quente e colocada na voz ligavam directamente aos meus neurónios que controlavam a minha humidade interna. Por assim dizer, espremia-me os neurónios.

Posso referir também que me deliciava quando a sua barba fofinha roçava contra o meu pescoço, contra a minha cara e sentia uma enorme cumplicidade pelo facto de ele usar boxers pretos tal como a minha lingerie. Para dourar um bocadinho mais a pílula ele afirmava poeticamente que A intimidade é a fusão de dois corpos no sumo espremido de dois espíritos. A esta distância já vejo que o espírito estava tão espremido naquele mês que só restava mesmo o corpo para fusão. É que naqueles dias, nunca o homem foi capaz de usar a língua dele em mim, se me entende Senhor Doutor, para eu não ter de usar o palavrão latino de cunninlingus ou o outro. Se calhar porque o sumo espremido do espírito não chegava para tamanha intimidade ou porque como na fusão das empresas nem sempre a contribuição é recíproca.

Mas andante com o 23 que repouse lá eternamente, que quando expirou durante o sono me deu uma trabalheira para explicar à família repetidas vezes que não, não senhor, não fora nenhum ataque cardíaco nem indigestão, mas apenas uma simples apneia.

* Original de 2004
[Imagem gentilmente enviada por Cap]

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