História da Carochinha

[Foto © Henri Cartier-Bresson, 1934, Mexico City]


Para acabar de vez com o que aí se conta a meu respeito insinuando como era janeleira à cata de gajos como uma reles puta do início do século XX em casas de tabuinhas e divulgando-o junto das tenras cabecinhas das criancinhas venho agora repor a minha versão da história.

O que é certo é que um belo dia encontrei dois euros no fundo da mala que já pensava que tivessem levado sumiço em duas ou três carcaças, joguei no Euromilhões e ganhei. O primeiro burro a quem contei o sucedido não me desamparava a loja e todos os dias me vinha com flores e chocolates que até parecia que a minha casa era um cemitério em dia de finados. Valiam-lhe os chocolates que me satisfaziam mais que o seu descomunal órgão reprodutor que não havia sangue que chegasse para içar tal bisarma e era com muita força de mãos que se enfiava como um trapo onde quer que fosse. Despachado que foi contou a desdita aos amigos e apareceram-me à porta uma quantidade de cães de linguita alçada prontos a marcar-me como território seu à custa de saliva e de mais qualquer coisita mas enfastiei-me daquela matilha babosa e pus os gajos com dono.

Até que apareceu o João Ratão todo falinhas mansas, guloso assumido e a elogiar-me os petiscos que era um encanto para qualquer mulher. Só que com o passar do tempo estimulava-o mais a deglutição das refeições que carregava pela boca e lhe aumentavam a curva da felicidade do que as de cama e até adormecia sobre o desempenho com um risco cada vez maior para a minha respiração. Vai daí que me preveni passando eu sempre à posição de cavaleira e como já estava acostumada a que ele apenas mexesse os olhinhos e os revirasse no momento de maior intensidade nem dei conta quando ele se passou de vez por indigestão.

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