A nova oportunidade da Bela Adormecida

[Design © Giuseppe Canavese, 2004]


Passei a década de 80 a dormir. Era tão heroína que pela boca ou directa às veias passava o tempo com ela ou com a sua ressaca. Nem dei conta que o Mário Soares foi presidente ou o Cavaco nosso primeiro que segundo me contaram até proibiu o Carnaval e obrigou a pessoal a trabalhar nesse dia. Política e sexo eram para mim a mesmíssima coisa que não lhes ligava nenhuma e nem dava conta quando me fodiam. Tanto assim que se a minha mãezinha não me tivesse rebocado por uma orelha até ao hospital mais próximo para me enfiarem um DIU tinham sido abortos que até fervia.

Muitos dos meus amigos caiam que nem tordos com overdoses ou presos ciclicamente nas clínicas de recuperação e quando o meu príncipe me arrebanhou para tratar de uma casinha e constituir família pareceu-me bem, tanto mais que nos anos 90 mais gente que conheci definhava a olhos vistos minados pela sida.

Agora o gaiato já está crescido, quase adulto e não pára em casa a não ser para largar roupa suja e o meu quarentão chega a casa tão esfalfado do emprego e dos biscates que ressona mais do que dá uso ao equipamento de lazer que trouxe de nascença e nem um cão pisteiro encontraria rastos da última pinga de esporradela nos nossos lençóis que até me sinto novamente a adormecer tão viciada nas rotinas domésticas e no esticar dos euritos como há décadas atrás.

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