A sedução das esquinas da memória

[Imagem da Ilustração Portuguesa, nº 104, 17 de Fevereiro de 1908, encontrada na Hemeroteca Digital]

O José Mário Silva é dono de um sorriso sinceramente simpático e de uma voz macia e tão calma que até somos levados a supor que mesmo em momentos de maior intimidade nunca a sua boca pronuncie uma palavra que não conste no Dicionário da distinta Academia das Ciências não fosse tal ideia desmentida pelo seu olhar sensualão. Todavia, deixamos a sua densidade psicológica ao critério do leitor e ao conhecimento diacrónico que dele possua.

O caso é que me encontrei este fim-de semana com o José Mário Silva, adiante designado por JMS, a páginas 44 da Actual que faz parte do pacote do Expresso, no preciso momento em que este sovava verbalmente a Rosinha. A Lobato Faria, a propósito de As Esquinas do Tempo. E até dele não discordaria uma linha caso não batesse de caras neste último parágrafo :

«Outras fragilidades são menos desculpáveis. Ao explicar ao seu amante no passado (1908) alguns milagres tecnológicos ainda por acontecer, a protagonista refere-se às aplicações da electricidade: 'Há máquinas para tudo. Fazer torradas, lavar a roupa e a loiça, moer a sopa e, com um toque num interruptor, acendes as luzes que quiseres.' O amante espanta-se, mas só porque não lê jornais. É que o interruptor eléctrico foi inventado em 1884 e a torradeira em 1906 e a máquina de lavar roupa no preciso ano em que esta parte da acção decorre. Uma consulta de cinco minutos no Google teria poupado à autora de A Flor de Sal estes embaraçosos anacronismos.»

É que não sei se concordo com JMS que seja crime de lesa-pátria um personagem de 1908 não ler jornais de ponta a ponta ou não ter sido um dos primeiros consumidores de luz eléctrica de Lisboa em 1904. Não sei se podemos confundir pesquisa googliana com investigação histórica e amalgamar a data de uma invenção tecnológica com a sua aplicação prática no quotidiano dos cidadãos e concretamente, dos portugueses. Não sei se podemos subir ao mastro do conhecimento à pressão obtido por motor de pesquisa on line para rejeitar as memórias quotidianas de cada um, o conhecimento do quotidiano passado oralmente de avós para netos e de pais para filhos com datas marcantes na história familiar como por exemplo será, a partir da década de 50 do século findo e durante décadas de acordo com o estatuto económico de cada família, a aquisição da primeira televisão do lar com memória da marca e do preço.


Adenda: O PreDatado também aborda este assunto

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