Agosto adolescente


Agosto

All i want was your time
What your ever gave me was tomorrow

Durutti Column


Foi no meu segundo e último verão algarvio.
Creio que se chamava Dulcineia a bela
e dou a minha palavra em como tinha
os olhos violeta. Na praia, eu era um feixe de ossos
aglomerados pelo frio e o amor, esse,
ainda mal descera do pescoço para baixo.
Dulcineia amava Gatão, mas Gatão só amava Liana.
Liana cravava-me cigarros em francês e
fazia-me corar de desejo quando enumerava
os mecs que tinha comido nos arredores de Nancy.
Na tarde em que Gatão conseguiu levar Liana
para o canavial, Dulcineia sentou-se ao pé de mim.
Nunca pensei que se pudesse beijar
sem tirar a chiclete da boca. No dia seguinte,
já nada tinha sido. Chamava-se, creio, Dulcineia.
Era mais especiosa do que a Dama Não Sei Quê
nos contos da lua vaga. Tinha trato com gente
de circo, domadores de sereias, marroquinos.
Deve ser por causa dela que detesto o Algarve.

José Miguel Silva, Vista para um Pátio seguido de Desordem, Lisboa: Relógio d'Água, 2003

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