Celeste

(a resposta do Carlos Gil ao Desafiómetro: "no escurinho, com um OVNI anexo )


Capítulo I - Celeste



Era de Ourém e estudava em Santarém, escola superior de educação, qualquer coisa assim que habilitava academicamente os futuros professores para aturarem os diabretes saídos das fraldas da mãe. Vivia num lar de estudantes só para raparigas mas, anos 80's e como já não eram exactamente umas criancinhas, havia tolerância de recolha à caminha até, sei lá, talvez à meia-noite. E liberdade total aos fins-de-semana que era credível serem passados nos ninhos de origem.

À época eu era ainda "virgem" na variante bela & pura da modalidade. Mas tal como sempre fora, ainda sou e quero ser até me expulsarem dum Lar por transmutação em velho devasso, era um romântico incurável viciado em paixões platónicas embora a carne gritando por se tornarem realidade. A carne e a alma. Só o cérebro atrofiado por medos e conceitos machistas de como "um homem" deve proceder correctamente com "uma senhora" travava-me de dar o tal primeiro passo que se espera que o rapaz dê, a carícia que sobe o braço e ganha um beijo roubado, roubado com gosto por quem é assim assaltada. Mas voltemos à Celeste, aos meus primeiros tempos em Santarém após a saga lisboeta do "retorno das caravelas" e um périplo pelas Beiras da zona baixa em que aproveitei a estadia e laboriosamente visitei turisticamente todas as farmácias e demais monumentos que me interessavam. Caí em Santarém, vim com a cheia e cá aportei pois encontrei cais para o meu batelzito: havia famelga cá radicada.

Entre outras que antes e depois existiram e amei perdidamente tal como os trovadores contam, aqueles cabelos castanhos claros que caíam em rolinhos numa face tão linda como só se tem nos dezoitos e onde os lábios formavam uma eterna linha entre o riso solto e o trocista, arrojei-me com tudo o que de mim tinha, alma e pouco mais, a seus pés, mímica que substituía a gaguez e o mutismo adorador quando a seu lado. Ela, ela e todos os colegas perceberam-no. Desconfio que um até "andava ao mesmo" mas nunca tive a certeza. Um final de tarde dum sábado, quando as discotecas abriam apenas para aproveitar o nicho de mercado que procurava algum álcool, muita música e ambiente para o tais beijos e amassos, os jovens, num glorioso momento em que os olhos dela brilhavam tanto como os lábios que se me estendiam, beijamo-nos. Glória e Aleluia! se estava apaixonado passei a cãozinho que a seguia para todo o lado. Razão tinha a junta médica militar que me pôs o carimbo de 'Inapto', embora, sapientes, sabendo que segóvias qualquer um que não seja duplamente maneta pode batê-las, acrescentaram o então enigmático mas hoje cristalino 'capaz de angariar meios de subsistência'. Celeste, o meu primeiro beijo húmido em terras forçadamente mátrias. Segundo no historial privado pois o primeiro foi o já contado, o na tal discoteca na "Monumental" de LM e que me deixou sem fôlego para trepar mais além da Lua, onde me aninhei como se num colchão de nuvens. E hibernei. Sem ressonar: eu ronronava enquanto sonhava... e me masturbava.

Eu era o apêndice do grupo dela. Não era colega de escola e curso como todos eram, mais nenhum e nenhuma me conhecia ou falava além dum cordial Olá e, quando nos longos tempos em que os jovens catam a sorna da vida nas mesas dos cafés, sabiam e respeitavam que a cadeira ao lado da Celeste era minha, o servo, escravo e amante platónico tinha assento ao lado da sua rainha. E sabem? eu era feliz estando ao seu lado, de vez em quando ela soltando-se das amarras da conversa em grupo e dedicando-me momentos d'ouro, palavras exclusivas que não distinguia pois a única interpretação era afogada pelo calor que me subia ao rosto por Ela estar a falar-me em exclusivo, os lábios no tal sorriso enigmático movendo-se sem tradução além da que eu, eterno estudante cábula, lia nos seus olhos brilhantes e acreditava, assim, um dia ser Aprovado em exame e passar de ano, saltar da cadeira para o seu colo e voltar a sentir que o mundo inteiro se evaporara e eu, nós, estávamo-nos cagando para isso pois ser beijado e beijar era a Vida. Assim decorriam algumas tardes de fim-de-semana e outros serões, a minha paixão florescia e era parcimoniosamente regada por ela quando via nos meus olhos sinais de cachorrinho abandonado, e uma mão pousava no meu braço revitalizando o onirismo até soar um festival de campainhas que me acordava da letargia deprimida e retornava à adoração à Deusa, rejuvenescido pelo pólen do calor da sua pele e pelo cristal dos seus olhos. Ah! e os lábios, o tal sorriso...






[Foto © angelica, 2006,
Odalisque portrait ]

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