Códigos e sinais

(a resposta da Fatyly ao «No escurinho do cinema»)


Por acaso nunca tive "momentos no escurinho do cinema" porque a maioria dos cinemas em Luanda eram totalmente abertos. Por vezes surgiam "autênticas manifestações" que levavam com os pés de quem estava atrás porque não paravam quietos e tínhamos que ver o filme aos solavancos porque todas as cadeiras eram fixas na mesma barra, inclusive lateralmente. A sorte é que não chiavam.

Eu ia a todas as estreias, excepto em 1973/74 e 1975 devido à guerra civil que se instalou onde desapareceu e fechou tudo.

Recordo-me de ir com a minha malta ver um filme bastante afoito para a época- classificado para 21 anos, ao meu saudoso cinema Miramar. O filme - A Piscina com Alain Delon e Romy. Este cinema ficava perto do porto de Luanda e às tantas o Y e a X estavam tão inspirados que deram um trambolhão e safaram-se graças ao toque do navio, ou seja só se apercebeu quem estava mais perto. Agora imaginem a vontade que eu tinha de rir e não poder para não os desmascarar, perante o foco que parou em cima de alguns de nós e de olhos no ecrã parecíamos os "meninos mais bem comportados". O foco era de quem? dos pidescos que não tiravam o olho dos enormes grupos de jovens e se fossem apanhados... enfim nem é bom falar. Tínhamos códigos e sinais, tal como bater com os pés nas cadeiras. Não sei como era cá, mas lá não deixávamos de fazer o quer que fosse como apregoam os da minha geração ao afirmarem que os vindouros pertencem a uma geração rasca.

Eu e muitos preferíamos as praias e muitas vezes dentro do próprio mar e não é por acaso que nasceram tantos filhos da guerra e muitos casamentos feitos à pressa para salvaguarda da imagem da família.

Eu era muito pouco dada a namoros mas no entanto o meu grupo era composto mais por rapazes do que raparigas e alinhava nas ideias brilhantes que tinham, tal como gamar as alianças dos pais (deixadas religiosamente na mesa de cabeceira), sair de fininho, ir a uma boate (só deixavam entrar com 21 anos e de anilha no dedo) para sabermos como era o que tanto nos proibiam, voltarmos a pôr as alianças no sítio e os pais não acordavam. Fui por três vezes e a última já com aquele que casei.

Daí eu dizer sempre às minhas filhas e jovens, que ainda bem que lutei contra um regime maldito e que nunca venham a viver num idêntico porque só quem viveu nele é que sabe dar o valor à liberdade. Tenho muitas saudades do meu enorme grupo que a guerra civil se encarregou de nos separar.


MusicPlaylist



[Foto de Alain Delon em 1972, gentilmente enviada por FA]

0 comentários: