“há estrelas no céu”

(a resposta do Carlos Gil ao Desafiómetro: "no escurinho, com um OVNI anexo )





Capítulo II - “há estrelas no céu”





Certa vez parte do 'grupo' combinou ir a Lisboa ver um filme que também me atraía. Algo como um documentário sobre a banda "Led Zeppelin", e esses tinham sido santinhos de meu incenso quando nas Áfricas vivia envolvido numa nuvem de fumo quente e exótico e sob o permanente rufar de música que me marcava o passo no marchar pela adolescência afora, a motorizada como adereço e tudo o mais como fait-divers utilizáveis e descartáveis, pois nada mais era fundamental à minha felicidade. Fora as paixonetas, claro, mas do relato isso extrai-se e só o relembro não como lembrete a leitor distraído mas apenas pela avidez que eu nutro pelas memórias que me formataram.



E formou-se um pequeno grupo, 'deles' uns quatro ou cinco que tinham duas casas onde se dividirem para pernoitar (a sessão era no domingo mas combinara-se ir no sábado para viver a 'night' lisboeta, miríade de luces para quem, jovem, vivia em Santarém onde, então, nem a AE1 já chegava. Mais o inevitável apêndice que mesmo informado pela deusa meio-encabulada em como era complicado conseguir infiltrar-me numa das casas de pernoita, em nada de nadinha me afligia pois até de dormir em escadas de prédios tinha memórias bem recentes: a minha era lisboeta sem eira nem beira ainda estava fresca, e nada me intimidava. Além, confesso, do desejo e esperança que cá dentro escondia que em milagre acontecesse que a Porta se abrisse e eu & ela entrássemos no mundo de todos mais desejado, ardendo e consumindo-me, o sexo por amor e não taxado à meia-hora. Lá abalámos, CP way.



Chegámos já a noite espreitava e, sei lá se por acasalamentos já combinados ou porque os deuses por vezes lembram-se de mim, eu e a Celeste vimos-nos sós e sem programa pré-estabelecido, pior: pelo horário tardio eu incapaz de cumprir o meu ritual de roteiro de paixão em Lisboa que é, há décadas e algumas desiludidas alminhas por testemunhas, passear de mão-dada pelos jardins da Gulbenkian, um beijo ousado num recanto ou o incomparável prazer de mergulhar os sonhos secretos estendido na relva, a seu lado. Entretanto cresci e aprendi que há voltas amorosas mais práticas a dar na capital, seja ela qual for e idem o galho em que urbanamente se aloje. Quiçá mais saciantes a sedes corporais, em bónus que sempre se espera de tais mergulhos também para almas e corações. E que de facto acontecem, banho de imersão em banheiras cheias de águas mágicas, rejuvenescedoras, águas cintilantes de felicidades. Mas, cá dentro de mim a Lisboa romântica & eu não se completam sem que a Musa se me enlace no verde calousteano, eu animal de hábitos e deles com recordações sempre vivas, ternas, todas, pois cada uma que se beija e rebola à beira lago é sempre ela a Princesa, a especial.

Portanto, e porque a sua “pernoita” não distava muito dali, fomos até à Feira Popular onde briosamente mostrei todas as minhas habilidades em rodopiar a bolinha dos flippers sem perdê-la, fiz peito-cheio a todos os galos e galitos que se aproximassem e, assim, sós no meio dos néons e da multidão que não via da nossa gôndola, carreguei a arca dos sonhos até sentir-me pleno, atestado de existir com o melhor combustível humano, o tal que é chama que arde sem se ver. E ela? não sei dizer pois não posso falar por ninguém: só de mim sei e é como vêm: inebrio-me na ilusão – que boa…! e isto dura há cinco décadas.



A noite dos milagres ia a meio e, confirmando-a como áugure de mais e mais e que nela tudo seria possível, à saída da Feira pelo lado da avenida da República pasmamos nós e todos com o que no céu acontecia: dois fortes sinais de luz, azulada, gravitavam não perpendicularmente à zona onde estávamos mas ao que avaliávamos na zona do aeroporto. Pairavam, não se moviam durante largos segundos e depois faziam entre si um bailado que nos emudecia – e éramos umas duas dezenas só naquele local, o passeio fronteiro à porta da Feira, e voltavam a imobilizar-se, lado a lado. Se cansados se vaidosos ou observantes do seu público nunca o soubemos nem os jornais do dia seguinte que amplamente mencionaram o “fenómeno” o disseram: de repente, após alguns minutos do saracoteio luminoso, um atrás do outro zarparam na direcção Sul da cidade, um ligeiro rasto de luz que se desvaneceu enquanto as nossas vozes, arroubadas, comentavam agitadamente o espectáculo hollywoodesco a que assistíramos e, contou a imprensa matutina, alguns minutos depois foi repetido sobre Setúbal e mais tarde alhures nos Algarves. Os deuses davam um sinal inequívoco de que aquela noite era, seria, especial, inolvidável, e enlaçámos as mãos enquanto caminhávamos para a casa onde ela dormiria, onde o eu esperançoso esperava partilhar tecto, solo e as carícias que os nossos poros reclamavam: terminámos o subir da avenida abraçados, a cabeça dela encostada ao meu ombro e peito, ouvindo o rufar da paixão.



O acesso foi-me negado. Eu vi que ela falou e insistiu com alguém lá dentro mas foi com o olhar baixo que regressou ao patamar para dizer-me que ‘no way’, perto ou longe dela, para mim, lá dentro, não havia canto onde aninhasse o resto da noite. Sentámos-nos no patamar e ainda reiniciámos algumas vezes a contagem decrescente do temporizador de luzes até que, entretidos na descoberta mútua dos corpos e dos sabores deixámos de perder tempo com minudências e foi na penumbra alimentada pelas luzes e sons que vinham da avenida da cidade que não dorme que eu e ela, ela e eu, encaixámos os corpos, tão sôfregos como as mãos que acariciavam o outro sobre a roupa ou por todos os cantos que ela permitia ou nela se iam descobrindo. No silêncio possível arfávamos enquanto as mãos acariciavam a genitália do outro, os peitos, as faces, e as línguas lutavam por se sorverem ou diluírem uma na outra. Tudo rolava perfeito com o senão que a cópula que desenvolvíamos com gemidos nos intervalos entre as bocas coladas fazia-se por simulação pois, se eu cheguei a desapertar as minhas jeans e senti mais intensamente as suas carícias, nas tentativas que fiz de lhe retribuir tal prazer encontrei sempre a sua oposição, não ténue e quebradiça mas firme nas lágrimas em ir mais além de onde nos saciávamos, dos seios sugados, das suas mãos cravadas no meu rabo puxando-me contra ela, no movimento ritmado dos corpos e no desvario de emoções, mas… semi-vestidos acima da cintura e ela de nudez não autorizada abaixo dela. Sim, tivemos os espasmos do orgasmo, os dedos cravados nas costas do outro e o turbilhão de beijos que o envolve. Depois soltámos-nos arfando da fusão dos corpos, eu sentindo as cuecas alagadas pela ejaculação que, se não vaginal, fora como se a tivesse sido, os corpos no ai mútuo abraçados, enlaçados, unos, colados como “se de facto”. Fizéramos amor, as mãos com os dedos acariciando-se enquanto normalizávamos as respirações e oxigenávamos os cérebros para a realidade daquele patamar, íntimo mas não ultrapassado, não enganavam. Nem as suas lágrimas. Com um beijo que a penumbra me mostrou ser de faces molhadas ela partiu, abriu a porta e desapareceu, a roupa composta no possível e o coração sei lá como. Eu tirei as cuecas e limpei-me no possível, arrumei a minha roupa e órgãos - e não me refiro ao penduricalho, e saí para a noite, a luz da noite citadina que iluminava os táxis voadores e os solitários nos passeios. Havia estrelas no céu mas os discos-voadores tinham terminado a sua passagem e de si e do seu rasto só havia aquele ainda ligeiro arfar, e as recordações. E a dor, pois cá dentro sentia que morrera a esperança e a minha rainha e deusa era inatingível à consumação plena dos desejos carnais. Outra virgem como eu, apenas mais receosa da sua “primeira vez” por não ter tido a iniciação abastardada e tão fria como o metal das moedas é que eu tivera, lamentavelmente tivera.



Entretanto nasceu o Sol e era dia de cumprir o programa: ir ao Cinema ver e ouvir os Led Zeppelin, o gemer das guitarras celebrando a noite dos OVNIS.









[Imagem do filme Conte d'été de Eric Rohmer, 1996]

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