Lagartixas (aguarela)

(a resposta do Carlos Gil ao Desafiómetro: "no escurinho, com um OVNI anexo )


Capítulo III - Lagartixas (aguarela)

Há dias que nascem suaves, calmos, e assim se estendem num espreguiçar de Sol e vidas, quais lagartixas em que a perene monotonia pouco as motiva à procura duma sombra; alimentam-se do calor, da mansidão duma brisa que corra e as afague, e permaneça. Outros nascem com raios, tiroteio dos céus que encharca e conspurca irremediavelmente o advir diário. Acontece. Quem não foi já vítima de “fogo amigo” vindo de deuses, deusas e alhures, e na tempestade fez suas as suas mazelas? corpo pejado de band-aids que ocultam a curiosidades mórbidas as dores que no novo dia connosco se acasalaram?

Bem, é-me impossível recordar a manhã e se nela algo especial ocorreu perdeu-se nos registos do meu disco rígido, já falho de tanto que não me espanta se de drives também estiver carente. Dela, manhã, a imagem que mais se me cola à memória como passível de ter ocorrido é a duma lagartixa ao sol, calcorreando paredes horizontais de auscultadores postos e gravador a tiracolo (há espécies na família dos lagartos que remontam a tempos pré-históricos, antes dos leitores de mp3 e dos últimos bric-a-brac, creio que se chamam iPod). O som terá sido um Mix, Led Zeppelin pré-anunciados, Bécaud augurando-me melancolias e, porque não contá-lo, Nilton César falava-me nas tantas namoradas que sonhei. Mix, my way, eis a vida resumida numa manhã, sol ou relâmpagos, chuvas do céu que todos ama e todos molha e seca indiscriminadamente, e a chuva dos pólos meigos da face, os olhos, esses poliglotas da alma.

Após esta introdução juro nunca mais atirar pedras às lagartixas, pecadilho de quando em calções e por inerência do seu tamanho os sonhos e as maldades, tudo lhes era proporcional. porém depois de recordar Robert Plant e num patamar anónimo amar e ser amado carnalmente como voltar a abusar do Sol para persegui-las, como voltar a ousar despir-me sem um beijo de amor? há amanheceres que não se esquecem mesmo quando, como agora, só na neblina da memória sobrevive este mix desconexo, e uma até agora insuspeita ternura pelas lagartixas que apenas querem do Sol o seu calor, talvez a sua forma de aquecer a gélida inexistência de alma que corra no seu sangue e lhes anime o coração, talvez apenas tenha percorrido as ruas da cidade sem rota e ao ritmo mix da cor do rubor do meu coração, confuso e ansioso em batuque pagão à Deusa, Celeste, recordo-vos, e que os vinte recém iniciados acompanhavam com solos de guitarra de Jimmy Page.

Assim foi a manhã e à tarde havia cinema, rebobine-se a memória e baixem-se as luzes para poder em recato e com pudor de que não me esquivo contar-vos do finar de mais outro amor interrompido, este centímetro quadrado do rendilhado de cicatrizes que a todos nos acompanha e, em mim, não acreditem que me constrange: pelo contrário, sou devoto que garantiram a minha capacidade de apaixonar-me e reapaixonar-me continuamente, plâncton que enche a despensa dos meus castelos, hera que lhes aloura as muralhas, energia que me leva a nunca desistir de subir os infindos degraus da torre mais alta e, de lá, olhar o Sol a nascer, um novo dia e uma nova esperança florindo até a penumbra cair e, ciclo, fenecer. Haja sol e sobreviverei, haja amor e duma amada me encantarei. Como nos filmes, tal & qual. Numa promiscuidade de encantos nascida e renovada por mor de vós, Princesas, cada qual a seu tempo a ‘especial’ caso ouse vestir-lhe o lindo manto e aceitar a minha trôpega adoração. Vamos então para “o escurinho”, para a fila onde, como sempre e mais ainda pelo não esquecido patamar ao luar o lugar ao lado Dela era meu, até então lugar cativo pré-intervalo e pré-final de filme, “et maintenant” filme em plural.

Provavelmente vou desiludir leitores. Não a mim, que contei e repito umas mãos-dadas num jardim sabem a figos roubados e estes são mais saborosos que meloas em viola nas penumbras do efémero. No “escurinho” não houve reedição soft ou hardcore do arfar da noite, a festa da carne sedenta: as opiniões ao alheio são sempre subjectivas e a classificação etária dos filmes sempre a achei caprichosa, frustrantemente arbitrária. Aos quinze, desesperado por nos filmes que a idade me permitia aceder nunca a visão dumas mamas passar de promessa a um ecrã cheio do “objecto” de fascínio, tive a ideia ‘luminosa’ de tornear os cortes ao celulóide feitos pela Censura mascarando a minha lascívia de intelectualidade: fiz-me sócio do Cine-Clube da cidade, a ex-Lourenço Marques onde remo infatigavelmente pelos cantos e recantos da infância e adolescência, crente que nas intelectuais sessões das cinco aos sábados no Cinema Dicca, primeiro, à porta a prioridade não era o comprovativo da idade e sim do cartão de sócio com quota em dia e, segundo e muito importante, dado o público a que se destinavam o padreco ou coronel ou o raio qu’o parta que me fazia os cortes às mamas, ser tolerante aos pormenores físicos e mais cioso nos cortes aos pormenores ideológicos, políticos. A minha memória regista que acertei na mouche e enchi o papo de mamas em technicolor quando era ocasião para primeiro plano delas, e assim em bónus e por via das fascinantes glândulas mamárias abordei e fui abordado por outros fascínios do celulóide, aprendi a vê-lo além do bang-bang dos bons aos maus ou da risota fácil, mesmo além do erotismo sublimado das mamas e mais o resto entrevisto ou adivinhável ou, vergonha das vergonhas, do fascínio juvenil pela violência mistificada em heróis que, percebi, afinal não valiam o papel do enorme cartaz que os anunciava, cobrindo as frontarias dos cinemas “de estreias”, das sessões esgotadas e das multidões.

Não, as minhas mãos não lhe procuraram os seios, os lábios terão trocado um beijo rápido mas envergonhado pois, sentia-o e ela sentia-o também, era nítido, visível, palpável na penumbra, todo o resto do grupo estava pelo rabo do olho atento ao que se passava no nosso cantinho. E se não era assim eu sentia-o assim, e se então jurava que ela também o sentia dessa forma hoje por fidelidade às memórias mantenho o juramento. Apertamos as mãos com força, a força da ternura e, sentia-o como o gesto que inicia o giro da torneira, a força do adeus, a despedida do romance, fim à Deusa e fim de mim seu sacerdote. O meu polegar acariciava-lhe a palma, ela retribuía, e em adocicado que acho merecedor, se não foi assim não faz mal e acrescento esse pormenor à aguarela: uma pincelada no ego não faz mal a ninguém.

No mais pouco há a acrescentar. As lágrimas que inicialmente corriam discretas, conforme no ecrã a música trepava e subia, envolvia e inebriava, corriam soltas e juntei um audível soluçar à voz de Robert Plant, versão inédita na discografia dos Led Zeppelin e que fez - isso vi-o e recordo-me bem – fez ouvirem-se cochichos e verem-se alguns troncos inclinados de forma a verem na penumbra, o “escurinho”, o que no “escurinho” não está no programa. Ela? penso que se sentia num misto de compreensão e vergonha digladiando-se, a sua mão tanto apertava a minha com a força do carinho como, quando as tais cabeças curiosas emergiam no visível soltava-a e entesava-se na cadeira, tesa e direita e de olhos fixos (e via?) no ecrã, “nada a ver comigo”.

That’s my story, folks! Na minha colecção de amores impossíveis e de paixões “tal como nos filmes” esta é a minha memória do “escurinho” e dos amores e calores que lá acontecem. Trauteio-a desde que aos nove anos de idade apaixonei-me pela primeira vez. Trauteio-a ainda hoje, cãs, rugas, e barriguinha dos cinquentas. E ainda hoje me lembro das lagartixas ao Sol, dos amanheceres perdido na cidade e nas minhas emoções, ainda acredito em deusas e contos de fadas. Mas nunca mais mandei pedradas às lagartixas nas paredes: o conto original pode ter as personagens erradas por descuido do Autor, e em vez de sapo o príncipe ser uma lagartixa, tal como então, hoje e certamente amanhã espero o beijo que me transforme no Príncipe. Como nos movies. Como nos movies e seu “escurinho”.

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