A mão

(a resposta do Bartolomeu ao «No escurinho do cinema»)


Passadas no cinema tenho bués, nem todas elas muito dignificantes, mas uma dessas ficou-me grafada a fogo, tal e qual as marcas que afinfam nos quadris das rezes quando são marcadas. Teria uns 18, 19, não me recordo bem, vou com uma namoradinha e um casal amigo também namorados a uma sessão da meia noite. No tempo em que os filmes ainda tinham intervalo. Quando nos estamos a sentar, topo uma garina bacana na fila de trás, precisamente na nossa direcção. Sentámos-nos os machos às pontas e as fêmeas ao meio. Antes de se apagar a luz, fui deitando umas miradas à garina, acompanhadas de uns sorrisos meio do tipo, és pouco boa és, mas eu também não sou nada rançoso, entretanto pareceu-me que a vizinha também estava a mandar uns sinais, uns sorrisos meio tortos e coiso...

Aqui o manguelas, mal a luz se apaga, coloca o bracinho por cima dos ombros da respectiva e deixa a mãozinha a jeito para se a menina desejasse colocar lá um papelinho com um número que... eventualmente correspondesse ao do seu telefone. Até ao intervalo, népias de bilhete; como ficámos sentados durante o intervalo, continuei com o joguinho de olhares e sorrisos a que a menina correspondia agora com mais nitidez. Pensei: hmmm na segunda parte é que o númerozinho vai saltar da cartola.

Dá-se início à segunda parte e lá voltei a colocar a mãozinha, como quem pede esmola à porta da igreja. O filme decorreu, decorreu e qual é o meu espanto, sinto uns dedos tocar os meus. É lecas, a coisa está-se a compor... como não podia dar bandeira e olhar para trás, comecei a fazer mímica, tentando dar a entender que queria o nº do telefone. Assim que parava a mímica voltava a sentir os dedinhos a entrelaçarem-se nos meus e a fazerem festas e eu obviamente a retribuir, mas sempre insistindo na escrita.

Como não aparecia bilhete nenhum, às tantas pensei: sacana da gaja, das duas uma, ou é burra, ou está a gozar comigo. Bom chega o fim do filme e depois de muita apalpadela de dedos, népias de bilhetinho. Acendem-se as luzes, levantamos-nos, deitei logo o olho à miúda que para além de se rir fazia-me sinal com a cabeça para a seguir. Agora é que estou tramado, pensei, como é que vou fazer isto?

Quando começámos a sair, o meu amigo que vinha atrás de mim com a namorada, puxava-me a manga da camisa, eu sem perceber nada, pensava que ele estava no gozo, não ligava. Quando chegámos à rua, o meu amigo pára ao pé de uma montra e chama-me para ver uma coisa, as miúdas andaram juntas e quando se apanhou sozinho comigo, atira-me à pressa: Pá viste uma gaja muita boa que estava atrás de nós?

Eu, armado em campeão: Se vi? Ouve Zézinho, passei o filme todo a fazer-lhe festas na mão. A primeira reacção do gajo foi de espanto, depois ria que nem um doido, de tal maneira que eu até pensei que lhe tivesse a dar alguma travadinha. Quando o gajo ganhou fôlego e me disse que era a mão dele, e que ele julgou que era a da rapariga... até nos encostámos à parede a rir. As duas namoradas é que não pescaram nada do assunto e como é natural, não paravam de nos chamar parvos e ameaçavam que se não parássemos de rir se iam embora sem nós.




[Imagem do filme Amor de Perdição , 1943, de António Lopes Ribeiro ]

0 comentários: