Tropical

(a resposta do Erecteu ao «No escurinho do cinema»)

[imagem daqui]

O Tropical, salão que hoje se chamaria de multi-usos servia para casamentos de truz, com empregados de branco aperaltados, esganados em colarinhos de padreco circulando entre as mesas; em tardes de domingo, abrilhantavam-se as matines dançantes onde as meninas bem comportadas dentro dos seus vestidos de chifon, lábios acetinados por um baton em tom que a decência permitia, sentadas em cadeiras dispostas perifericamente, vigiadas, lá do fundo, pelas mães mais liberais do mundo instaladas em mesas, aguardavam que uns amores de rapazes, em calças afuniladas coroados sob o brilho de popas domadas a brilhantina, atravessassem o salão e respeitosamente lhes dirigissem:
-A menina dança ou já tem par?

No Tropical, na ausência de baile (ou seria aos sábados?) abria-se a cortina do palco e dava-se inicio à sessão de cinema, começando por dispor as cadeiras a jeito de melhor se espreitar a tela, ou de outra coisa qualquer. Pois foi no escurinho do cinema Tropical que dei pela segunda vez a mão a uma menina que, por acaso, até era prima por afinidade. Foi bom, tão bom como da primeira (mas isso foi no carrinho de choques e é melhor nem me lembrar dessa cena), foi mesmo bom. Foi a abertura para um novo mundo, uma vida nova, foi, repito, mesmo bom. Tão bom que compensou a valentíssima dor de tomates com que fiquei!

Ah! Por favor não me perguntem como se chamava o filme, tá?

PS - Muitas mais vezes dei a mão no escurinho, e a mais alto me alcandorei, até em cinemas ao ar livre ( esta é pá Fatyly) como o Miramar, o Avis, o Império e outro lá para a Maianga, o certo é que nunca mais tive dor de tomates, tinha é que disfarçar, não sei como, uma manchita nas calças se, entretanto, o tropical calor não tivesse tratado disso.

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