Arte do chá


Eu quero é que ele vá ter um menino pela barriga das pernas resmungou enquanto ia à cata de uns toros de gengibre que eram todos pequenitos aí com uns cinco centímetros cada. Ciumento do caraças que não me podia ver a falar com um colega que no dia seguinte não se penteasse da mesma forma ou lhe copiasse a roupa rabujou enquanto com uma faca afiada tirava uma casca fininha ao gengibre. Interrogou-se como é que nunca lhe passou pela cabeça que só temos ciúmes dos outros quando não damos valor a nós próprios enquanto enchia a chaleira de água. Pousou-a com estrondo como se recordasse as vezes em que publicamente ele exibia o braço sobre o seu ombro ou lhe estreitava a cintura ou até de mão cheia lhe apalpava o rabo desde que tivesse a certeza de que pelo menos um amigo nosso estava a ver ou saltasse do catano do disco rígido o sempiterno responso por usar a casa de banho ao mesmo tempo que ele mais as matinas em que se esquecia até de um beijo de bom dia envolto em preguiça ramelosa e começou zás zás zás a cortar em rodelas o tronquito para dentro da água.

Sentou-se em posição de lótus no sofá de um com os pés desnudos a bordejar os apoios laterais mais a caneca fumegante nas mãos e em pequenos tragos cada vez mais joviais bendisse quem lhe dera a receita daquele chá que activava a circulação sanguínea até às extremidades para dispensar os aquecedores de pés que em nós não depositem confiança.




[Foto © Alois Studio, 2006]

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