Cândido *


Não era tão cândido como o do Voltaire nem tão corajoso como aquele que está em todas as cidades portuguesas e só em Lisboa se chama Almirante Reis mas caramba, aquela irritação na garganta estava há um dia inteirinho a incomodá-lo e medida pelo tecnológico termómetro de orelha tinha mesmo febre pelo que se justificava a ida às urgências.

O médico ouviu-lhe o historial traumático da retirada das amígdalas na infância e os sintomas actuais que o atormentavam e inspeccionou-lhe criteriosamente a garganta após o que se voltou a sentar e com um enigmático sorriso para aquela desgraça alheia afirmou que era coisa que se resolvia com uns antifúngicozitos embora conviesse que a senhora também se tratasse.

Estampou-se-lhe no rosto o ar cândido e estupefacto com a revelação de uma senhora lhe ter atazanado a garganta e o médico avançou que às vezes a candida albicans, popularmente conhecida por sapinhos, um fungo oportunista que costuma viver nas mucosas vaginais passa por artes de língua a germinar na cavidade bocal. Ele lá expressou um ah de quem descobre finalmente a pólvora rematado com um sorriso ansioso por solidariedade masculina que o médico não escusou desejando-lhe que não tivesse muito trabalho a desvendar qual a causadora de tamanha maldade que nos próximos tempos só se recomendava repouso.

[Foto de 1906 do
© AMEA/World Museum of Erotic Art]
*Original de 2007

0 comentários: