Revista do ano do rato ou dos olhos em bico


Desfolhando este blogue recordo que começámos o ano de 2008 a não poder fumar em todo e qualquer recinto fechado e a pegar na lancheira para almoçar ao ar livre com o objectivo de poder fumar o cigarrito no fim enquanto não se legisla sobre esse hábito no interior de cada lar após a queca. Para reforço das proibições o tabaco ainda aumentou e recebeu um novo rótulo com a matrícula CON.

A crise foi a grande moda a par do sucesso da alma de marcolinos mas tivemos a vaca de estas serem o animal do ano por via de um anúncio que jurava a pés juntos que existe uma vaca por cada duas pessoas, catapultando-nos de imediato para o ambiente de bufaria dos locais de trabalho, para além do erotismo do Presidente da República quando afirmou “Fiquei surpreendidíssimo por ver como as vacas avançavam, uma atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquanto ele realizava a ordenha".

Fecharam umas maternidades mas os nubentes passaram a ter tanta papelada para preencher para o fisco que nem se preocuparam com a nobre arte de procriar, tanto mais que para equilibrar a balança estavam cá os deficientes para pagarem mais impostos. Nem ajudou os suecos terem descoberto que o gene da monogamia não calha a todos, nem tudo o que se deu à língua sobre os casamentos homossexuais e os divórcios heterossexuais. Houve sim lugar para umas brochuras porreiras,pá, sobre o Tratado de Lisboa, o que em ano de Jogos Olímpicos nos remeteu para o tratado do broche chinês de João César Monteiro, que se estivesse vivo teria feito 69 anos.

Continuou-se a comemorar o 25 de Abril de 1974 e os professores protestaram o ano inteiro contra o estatuto a que os querem remeter, a eles e à escola pública, que nem as sensuais pernas da senhora ministra escarrapachadas num semanário de referência ou a reposição da moda fálica da exibição dos canudos travaram. O único resultado prático foi o de os pais passarem a acompanhar mais os filhos nas manhãs de fim de semana para visionarem juntos o programa da Lucy, acabadinha de insuflar nos seus airbags.

Celebraram-se também os 40 anos do Maio de 68 e a D. Quixote aproveitou a ocasião para dar a lume a obra impressa do homo erectus da Praia da Rocha tal e qual como as calças descaídas no cu continuaram na moda. E apesar do Vaticano ter feito um upgrade do perfil dos pecadores foi à discussão na Assembleia da República um diploma a proibir o uso dos piercings, quero crer que para potenciar uma gargalhada de todo o tamanho a José Luís Peixoto e nas praias algarvias foram proibidas as massagens e a distribuição de maçãs não fosse o diabo tecê-las. Talvez daqui se tenha gerado igualmente a ideia peregrina de circulamos com um anjinho da guarda em chip incrustado em cada automóvel.

Foi também o ano do desacordo ortográfico e apesar do milagre de Nick Cave que se levantou e andou a música do ano só chegou perto do Natal com Salvem os ricos. O centenário de Manoel de Oliveira determinou que o seu nome fosse dado a um comboio rápido e apesar da estreia de Um Mundo Catita, a horas tardias e na RTP2, as vistas estiveram mais voltadas para os pêssegos, como Clooney enquanto Mensageiro da Paz da ONU pelos esforços que desenvolveu na campanha pelos refugiados do Darfur e para o Javier Bardem de Óscar em punho. A celebração dos homens bonitos continuou com a vitória de Obama e estou em crer que foi esse pedacinho que faltou à petição para um tema dos Deolinda se tornar o novo hino nacional.

Vitoriosas foram também as desportistas Elisabete Jacinto que ao comando de um camião MAN ganhou o 2º lugar da geral do Rali da Tunísia de todo-o-terreno e Naide Gomes como campeã mundial do salto em comprimento. Nas Olimpíadas, foram Nelson Évora, mais a Vanessa Fernandes e ainda, António Marques e João Paulo Fernandes, em boccia.

No obituário, o Tó Colante despediu-se aos três e partiram a São Veiga, o Luiz Pacheco, o Alfredo Saramago , o Dinis Machado, o Alçada Baptista e mais umas dezenas de mulheres vítimas de violência doméstica.

Finalmente, nas novas tecnologias encheram-se as bocas com o Magalhães para todo o serviço e as modas socialmente bem cotadas do IPhone e do Twitter .



[Imagens gentilmente enviada por JS e Xico L.F.]

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