Trópico de MST

As parangonas de «mupis» e «autedores» que enxameiam a cidade e arredores informam que é já amanhã que começa na televisão Equador, adaptado do romance homónimo de Miguel Sousa Tavares. E sem nenhum menosprezo pelo cativante rabo do autor tenho de confessar que a sua escrita me humedece mais, como quando confrontada com o seguinte naco:

[...] Ia levantar-se, quando a voz dela, muito calma e muito próxima, o deixou estarrecido:
- Que bela imagem! O governador de S. Tomé e Príncipe, em lugar de estar a trabalhar no seu gabinete, toma banho, todo nu, na sua praia privativa! Quem poderá levá-lo a sério, meu caro governador?
Ann estava sentada a dez passos, exactamente onde ele deixara as suas roupas e reparou que, lá em cima, nos coqueiros, outro cavalo estava amarrado junto ao seu. Era óbvio que tinha feito de propósito para que ele não a visse, enquanto mergulhava debaixo de água. Instintivamente recuou dois metros para dentro de água, mas permaneceu calado, sem saber como reagir.
- Então, Luís, assustou-se, perdeu a fala?
- Não, estou a pensar como é que saio daqui, agora...
- Como? Tal como entrou: pelo seu pé. Ou precisa que o vá buscar?
- Não, eu sair, sei. O problema é que, como deve ter reparado, estou integralmente nu.
- Ah! Mas isso é uma perspectiva extraordinária! Já viu que coincidência fantástica, encontrá-lo a sós e logo numa praia deserta e logo todo nu, dentro de água?
- Parece de propósito...
- Não, parece é um acto do destino. Juro-lhe que não o segui e que vinha a passar por aqui absolutamente ao acaso, quando vi um cavalo preso no coqueiral e resolvi espreitar quem era o habitante solitário da praia. Devo confessar que o reconheci pelo cavalo e não pela visão do seu rabo ao longe, mergulhando e voltando à superfície!
Ela desatou a rir, como uma menina que tivesse acabado de fazer uma asneira, e ele não pôde impedir-se de soltar também uma gargalhada pela confissão dela.
- Bem, então vou sair pelo meu pé. Olhe para o lado ou prepare-se para a cena do governador de S. Tomé desembarcando nu perante o olhar da mulher do cônsul inglês.
- Faça-o.
- Não posso. Agora, já não posso.
- E porque não?
«Vou, não vou? Avanço e seja o que Deus quiser, ou não avanço?» - Luís Bernardo procurou ajuda na expressão dela, mas ela mantinha-se sentada, com o ar mais calmo e natural do mundo, apenas um ligeiro sorriso de malícia ao canto da boca.
- Bem, Ann, sucede que, como deve calcular, hum, neste ponto das coisas, enfim, como hei-de dizer, já não estou em estado anatómico de inocência. Não sei se me expliquei bem?
- Sim, acho que percebi, estou a ver o seu problema. Mas talvez haja outra solução.
- Vai passar-me a roupa? - perguntou ele, aguardando a resposta ansiosamente.
- Pelo contrário: diga-me, como é que está a água?



[o texto reproduzido pertence às páginas 320 a 322 de
Equador, Lisboa: Oficina do Livro, 2003]

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