Uma história mafiosa

[Foto © Tom Sperduto, 2008]

Sempre que lhe dizia fazias melhor em enfiar as flores pelo cu acima ele sentia-se o mais injustiçado dos homens, amachucado no seu orgulho de pessoa de respeito e macho cumpridor com o figurino que lhe ensinaram, não aceitando a minha rejeição sistemática àquelas falecidas hortaliças embonecadas na florista que aliás estão indicadas como método de dominação e apaziguamento das mulheres em todos os manuais pós-neolíticos.

Como o seu tetravô também crescera escudado nos valores de desabafar as suas mágoas com outros que nunca a sua legítima, justificando essa falta de intimidade e de amor como protecção e custava-lhe que lhe ripostasse antes puta, antes puta de 1900 para acolher cumplicemente os desabafos dos gajos do que esposa feita candelabro de decoração ou protegida da Máfia.

Era uma querela velha e farta de ser mobília da sua empresa de sobrevivência mascarada de afecto, despedi-me dizendo-lhe que sempre desejei valer por ser quem era e não pelo favor de ser da família.

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