Película aderente


No dia combinado encontrávamos-nos à porta do cinema que exibia o filme escolhido muito limpinhos e perfumados como manda o manual da sedução e de mão dada mergulhávamos na sala ainda iluminada para o primeiro ritual em que ele retirava os óculos da respectiva caixinha e os ajeitava às orelhas com ambas as mãos.

Saíamos da sala em risinhos cúmplices a debulhar as primeiras impressões do filme e a correr para a saída para acalmar a minha necessidade de acender um cigarro e seguir para outras quatro paredes onde a película aderente fosse o seu corpo no meu. Despi-lo era o grande plano do espanto de uma pele macia à luz coada da tarde pelos cortinados e o suspense do momento em que as suas mãos apalpadeiras de nalgas se intrometeriam entre as minhas coxas percutindo cada milímetro de superfície alagadiça. Talvez as minhas mãos firmadas na cómoda a empinar-me lhe permitissem um melhor enquadramento da sequência em que as suas ancas imprimiam o andamento ronceiro.

O beijo quase sufocante dos seus lábios a desmaiarem nos meus era o prenúncio da última cena em que aproximava o cinzeiro e de uma assentada eu acendia dois cigarros espetando um na boca dele para retomar a crítica do filme que se eu fosse dada à escrita intitularia como um filme, uma foda.


[Imagem: Cartaz de
O pecado mora ao lado, de 1955]

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