A porca de Álvaro de Campos

[Foto © Jorge Colombo, 2009]

A alma humana é porca como um ânus
E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações.


Meu coração desgosta-se de tudo com uma náusea do estômago.

A Távola Redonda foi vendida a peso,

E a biografia do Rei Artur, um galante escreveu-a.

Mas a sucata da cavalaria ainda reina nessas almas, como um perfil distante.

Está frio.

Ponho sobre os ombros o capote que me lembra um xaile —

O xaile que minha tia me punha aos ombros na infância.

Mas os ombros da minha infância sumiram-se antes para dentro dos meus ombros.

E o meu coração da infância sumiu-se antes para dentro do meu coração.


Sim, está frio...

Está frio em tudo que sou, está frio...

Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...

E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.


Engelho o capote à minha volta...

O Universo da gente... a gente... as pessoas todas!...

A multiplicidade da humanidade misturada

Sim, aquilo a que chamam a vida, como se só houvesse outros e estrelas...

Sim, a vida...

Meus ombros descaem tanto que o capote resvala...

Querem comentário melhor? Puxo-me para cima o capote.


Ah, parte a cara à vida!

Levanta-te com estrondo no sossego de ti!


Álvaro de Campos in Livro de Versos. Fernando Pessoa (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.), Lisboa: Estampa, 1993


Adenda: que nem ginjas como digestivo para este post, descobri estoutro do Ministério da Soltura.

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