Cais das Colunas


Regressou o Cais das Colunas e com ele as memórias daquela faixa de terreno pedregoso que o ligava ao terminal dos barcos do Cais do Sodré e que mal anoitecia conhecia tal actividade nos seus poucos bancos de jardim que mais era uma avenida dos amassos.

Talvez para fugir a esse corropio nos enganchássemos antes no fundo do pontão que havia mais adiante com vista para os armazéns de peixe e fruta. Muito viço a cruzar as pernas um sobre o outro como se não existissem membros dormentes na distribuição de cabazes de beijos por toda a pele que era lícito descobrir como se não houvesse amanhã. Não fora uma vez as calças de ganga dele terem ficado profusamente manchadas por uma acção explosiva de dentro para fora logo nos primeiros minutos de lida e não teríamos repudiado o local.

Daí que um dia em que saíamos às tantas da matina do Jamaica e sem perspectiva de barco para a outra banda caminhámos a direito e lá fomos para o pedregal à beira tejo erguido distendendo as pernas e os dedos entre fechos e botões e ainda não estávamos toldados com o aquecimento quando a cabeça de dois mirones com boné de polícia nos fez abrir mais os olhos. Separaram-nos imediatamente como se a nossa união fosse contraproducente à autoridade deles e rabujaram que não lhes faltava mais nada. Identidade pedida faltava atestar a dele que tinha ficado esquecida no bolso de outras calças e às tantas já se encontrava deteriorada por uma lavadela na máquina. Um dos polícias não se conformava com a situação e gesticulava e abanava constantemente a cabeça como se aquelas desgraçadas ocorrências só a ele lhe acontecessem e vai de puxá-lo mais de banda e num sussurro mas de máscula voz que apelava à cumplicidade peniana interrogou-o se não me podia ter levado para uma pensão e poupar-lhe aquele monte de chatices.

[ Foto © Funtasticus, 2008]

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