Corpo sempre




Digo do corpo digno inteligente activo,
ou adorativo aqui sob este sol demente
Digo do corpo digo o que indigente gente
declarou pervertido inútil indecente,
de escamotear esconder vestir e declarar
não-ter (sendo contudo algo de omnipresente).

Digo que o sexo existe apenas porque sim
como o pudera ser por exemplo um rim
ou qualquer outra víscera ou quem sabe um membro
que parece amovível quando e se preciso
porém nunca senhor deste secreto templo
vivo discreto imenso renovável todo
aqui e agora e logo e por fora e por dentro,
uno ou dispersivo, mas um corpo sempre.


Maria da Graça Varella Cid
, Perfeito do Indicativo, Lisboa : &etc, 1982.

[Foto © Paulo César , 2009, dois beijos de luz]

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