Faz de mim a tua puta


(Em resposta a um desafio do Toze*)






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Sempre que conto as notas no final de cada dia há uma satisfação que me acaricia cada fragmento do meu corpo e bendigo o dia em que mandei línguas e literaturas modernas às urtigas e a hipótese de limpar o ranho dos filhos dos outros. Se fosse hoje talvez me leiloasse na net e de seguida abrisse um outro negócio mas não ajudaria tanta gente.

E caramba sou competente no meu trabalho que não há pila que eu não descubra a forma de a espevitar mesmo que não seja de um cliente habitual. O professor de sessenta e tais anos continua a voltar pelos meus broches que a partir das sucções iniciais na cabecinha o aconchegam inteiro na minha boca até ao soluço final sem esquecer no durante umas serpenteadelas de língua no mastro e umas mãos persistentes a afagar-lhe os tomatinhos. Ou o gerente de loja que só se sacia a comer-me de quatro esperando que eu estique os dedos pelos seus testículos em escorregadelas constantes e que na fase de aceleração o meu médio se introduza no seu rego lavadinho que é prazer que não consegue pedir à esposa. Isto é como ser mecânico de automóveis que tanto garante o arranjo do carro qualquer que seja o problema como simplesmente faz uma mudança de óleo.

Não contam com a minha lubrificação no máximo e os gemidos são colocados no momento certo como os aplausos em programas televisivos mas tropa é tropa e conhaque é conhaque e sei que presto um serviço eficiente ou não regressariam. Não tem nada a ver com quando me apaixono e esse turbilhão me limpa as memórias anteriores permitindo que a simples visão do outro me espete os mamilos e humedeça os genitais num crescente frenesim e até me acrescente requebros adocicados na voz como se dissesse faz de mim a tua puta.




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* Em que o texto de mote era este:
“Havia no corpo de Bianca um grau de pureza incorruptível, por mais que lhe passassem pilas pelas mãos, pela boca, pela vagina, ou pelo ânus, se a tanto ela se dava. O seu jeito de saltar febrilmente sobre ele largando suspiros de luxúria corroborava a sua opinião, fazia-o como a mulher a dias que passa a roupa da patroa a ferro, como a empregada de limpeza que lava a escada do prédio, como a dactilógrafa que redige cartas comerciais. O seu ofício era foder e queria fazê-lo depressa, despachá-lo para depois repousar um descanso merecido, sem virtuosismos ou exibicionismos excessivos, mas ao mesmo tempo com o brio da profissional que não descura o seu trabalho e faz questão de o deixar bem feito.”
In Invisão, Mário Cunha

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