Liturgia


Trazia uma gravata pendurada em cada gesto e quase até aos pés quando me abria a porta para passar. E tratava-me por doutora que é uma coisa que não lembra ao diabo do mundo que bem sabe que até deixei o canudo a apodrecer nas catacumbas administrativas da faculdade. Não obstante repetidamente me convidava para cafézinhos e pingava-me de chocolatinhos e bombons e neste ritual adocicado uma mulher não é de ferro e lá lhe avaliei mais uma vez os polegares e as nádegas volumosas mas escorreitas e convenci-me que merecia a oportunidade de dar uma voltinha.

No seu quarto acendeu uma pequena luzinha e na restante penumbra indicou-me uma cadeirinha para colocar a roupa que ele afanosamente foi para outra dobrar a sua muito bem dobradinha. De pirilau pendente à mostra acercou-se de mim para me abraçar e pespegou-me um beijo pesado de lábios fechados para logo correr a abrir a cama em mil mesuras para afastar qualquer ruga dos lençóis e de palma aberta apontou-me o local para me deitar. Nunca pior pensei eu e lá me atirei para o colchão. E aí ele ajoelhou-se junto aos meus pés e abriu-me simetricamente as pernas num invertido vê perfeito pelo qual começou a deslizar até os ossos do seu esterno pousarem sobre os meus e aí se fez missionário da salvação dos seus aflitos espermatozóides.

Como não uso relógio não sei quanto tempo durou aquela eternidade mas para não ser chita reconheço que finalmente entendi qual era o sentido da expressão que ele usara de nos relacionarmos biblicamente.




[Foto © Arlinda Mestre, 2008, O Pecado de Adriana]

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