Os fantasmas


Senhor Doutor, casei-me nos anos 80 quando ainda a porteira do Frágil era gorda e não tinha fundado a associação dos lacinhos na lapela e circulava muito pelo Bairro Alto, muito arroz doce, muitas primas - que por acaso são a Primita, a Conchita e a Carmencita - muito jimba, muitos pastorinhos.

Mas nem queira saber, é como lhe digo, a minha vida dava para mais de 10 filmes do Manoel de Oliveira. Em casa, os fantasmas divertiam-se a desarrumar tudo. Eles faziam voar as tampas das panelas, os tachos, os fervedores e as panelas propriamente ditas. Era um desassossego naquela cozinha que nem imagina o que era aborrecido porque incomodava muito os vizinhos. E depois assustava muito o gato que ficava com o rabito do tamanho de uma abóbora menina e desatava a correr pela casa toda e a miar muito alto que até parecia que naquela casa era Janeiro todo o ano.

Já no dia do casamento a mala da madrinha tinha voado do piano para os sofás e aterrado no colo do Carlão que por acaso, não desfazendo, era um rapaz muito prendado em trabalhos de mão e de muito boa boca. A madrinha até comentou que era mau sinal. E não sou supersticiosa Senhor Doutor, mas aquela casa dava-me azar e tive de me divorciar.*





[Imagem gentilmente enviada por email]


* Texto originalmente publicado em 02.01.2004

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