Chérie


Eu sou uma gaja boa. Uma chérie. Todos me dizem que sou uma querida e portanto sou. No mínimo é o que me dizem os que interessam e esses é que contam. E quase me liquefaço todinha nesse prazer de ter legiões de seguidores a quem fiz pequenos favorzinhos e que em troca me devolvem uma admiração desmedida que só não me lambem os pés em público porque eu só retiro os saltos altos para tomar banho. Qualquer boutade que me saia da boca vai ecoando por eles fora como o fogo pelas matas nacionais e eu deleito-me por criar moda para tal vassalagem.

Que é garantido que sou uma mulher honrada e de um só homem como publicamente se sabe e faço sempre questão de assinalar nas datas para isso convencionadas. Ele é o meu quidinho, o mon petit lapin que claro que sim que tem um blogue que caso contrário cairia muito mal na minha ficha biográfica webiana e ninguém precisa de saber que quase o obriguei a isso e que o conheci lá fora no mundo exterior e me fixei nele por ser um magnífico exemplar de jovem loiro e alto com os glúteos rijinhos e muita energia para me revolver as entranhas e fornecer o orgasmo que me falta nos adeptos.

Mas apesar do meu simples e cómodo quiducho não perco a carruagem do prestígio e já o levei primeiro para o Hi5, depois Orkut e Second Life e ultimamente para o Twitter e o FaceBook, que tenho pavor de estar sozinha e sem ninguém para me admirar. E nem tenho dúvidas de que se devia criar um novo canal de comunicação embora desta vez exclusivo para casais modernos, saudáveis e de sucesso como nós porque nestas coisas a páginas tantas aparece lá tudo e é uma chatice e uma trabalheira para nos distinguirmos e elevarmos acima dos outros.


[Foto © Roberto Santorini, 2009, Collezioni Primavera Estate 2009 ]

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