Indespimento


Entre duas garfadas do puré contei-lhe que a nossa sobrinha está com ideias de casar mas que extraordinariamente ainda não experimentou o gajo. Ele levantou-se da mesa para ir buscar o saca-rolhas porque se lembrara que não tinha aberto previamente a garrafa e com o esgar sincronizado com a rolha enquanto a puxava alvitrou que assim sempre era uma surpresa.

Gracejei que o sexo faz sempre muita falta numa casa e é um electrodoméstico tão importante como o esquentador para não se ter toda a atenção na sua escolha. Ele cortou um pedaço da fatia de carne assada e preconizou que talvez assim não se fartem tão depressa e aguentem mais tempo juntos. Vigorosamente espetei o garfo na salada e atafulhei a boca de tomate, alface e pepino. E depois perguntei-lhe se não lhe parecia uma perda de tempo assegurar a durabilidade de uma relação como quem acerta um relógio sem a intensidade da paixão e a loucura que são as memórias que mais retemos.

Bebeu um gole do vinho e ao pousar o copo comentou que nem toda a gente era tão exigente como eu. Ri-me e acenei com a cabeça em sinal de concordância. Engoli o copo de vinho de um trago e descaindo a cabeça para o lado para enrolar uma madeixa de cabelo perguntei-lhe se não existem já demasiadas coisas na vida que não valem a pena.



[Foto © José d'Almeida & Maria Flores, 2009, A modern romance - central]

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