O informático


Sabe, Senhor Doutor, que a páginas tantas conheci um homem das informáticas, daqueles que vestem sempre calças de ganga e camisolas práticas como emblema da profissão e deixam crescer a barba para poderem dedicar mais tempo aos seus computadorezinhos.

Era uma simpatia de pessoa. Até me chamava carinhosamente o seu portátilzinho, enfatizando a diferença do seu metro e noventa para o meu metro e meio. E que não haja dúvidas, eu era mesmo portátil ao seu colo. Sempre que precisava de lhe falar bastava enviar-lhe uma sms a dizer F1 para me responder à chamada que eu calorosamente atendia com a frase «Helpdick, please».Viajámos imenso juntos, pelo Museu do Louvre, lugares paradisíacos do Brasil e assistimos a imensas apresentações de filmes, comodamente sentados frente ao ecrã flat de 19 polegadas do seu computador.

E depois, Senhor Doutor, o homem era danado para jogar, digamos que de forma proporcional ao tamanho do seu joystick. Sempre que terminava o jogo até dizia «Acho que o sistema crashou. Segundo a minha intuição profissional, o melhor é sair e voltar a entrar». E tudo decorria funcionalmente até descobrir que o homem não podia ver uma drive que não metesse logo a disquete* . O homem era multitasking. Sentei-me ao computador para ouvir «Banapple Gas» do Cat Stevens esperando que o gás me intoxicasse ou que o Corão me iluminasse.





[Imagem gentilmente enviada por Xico L.F.]
* Texto originalmente publicado em 5.01.2004, ano em que ainda era comum o uso de disquetes e que hoje facilmente se pode traduzir por pen

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