A pita


Ele chamava-me e eu ia logo ter com ele, trôpega e a abanar-me toda. Eu era a sua pitinha intensamente motivada para lhe ir comer à mão. Fosse qual fosse o dia ou a hora que ele aparecesse lá ia eu estender o pescoço às suas carícias de dedos e sentia-me recompensada por ele apreciar a fofura da minha pele e por entre tantas possíveis candidatas me ter escolhido a mim.

Nada como as suas mãos a avaliar-me os contornos do pescoço e as curvas do lombo com a mestria de gestos que tinha acumulado ao longo dos anos. E era uma autêntica ascensão aos céus quando com ambas as mãos me erguia à sua frente, olhos nos olhos, a fazer subir o desejo de que fosse mais qualquer coisinha na coisinha.

Um dia levou-me ao colo para outro lugar mais aconchegado, bucólico até com a palha acamada no chão e desapertou lentamente o cinto das calças como se fosse a contagem decrescente para o lançamento de um foguetão e depois, de sopetão, puxou-me contra si, virou-me de costas para ele e entrou por mim a dentro com o estretor de um tremor de terra que me abanasse todas as entranhas que até desfaleci logo ali. E hoje que descanso no paraíso dos aviários a fazer meia com a pomba do espírito santo ainda não lhe perdoei ter-me depenado toda antes de me deitar numa cama de cebolas e tinto do mais rasca no meio do seu forno de lenha para depois se deliciar a comer-me à dentada.



[Foto © Bernardo Coelho, 2008,
Queria uma sandes de presunto por favor]

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