Serviços públicos qualificados


Não vi com os dois que a terra há-de comer mas contaram-me que no tempo da outra senhora as funcionárias administrativas da autarquia lisboeta tinham de usar no serviço uma bata preta de um tecido fininho e acetinado que as cobria da base do pescoço até ao fundo do joelho como se fora uma burka de serviço.

E veio-me isto agora à memória por mor da proibição imposta às funcionárias da nova Loja do Cidadão de Faro de vestirem blusas decotadas, saias muito curtas, roupa interior escura, usarem saltos altos, perfumes com cheiro agressivo, e ao modo das discotecas selectas também gangas e ténis.

Como nem nunca fui adepta do Poison da Dior parece-me que a norma no que toca aos perfumes é uma medida a favor do ambiente e das pituitárias de cada cidadão mas também vi na televisão que é um indiscutível critério de verdade, que na inauguração da dita loja, o senhor que preside ao Conselho de Ministros defendeu uma administração pública mais barata e justamente aquele lugar como exemplo pelo que a medida no seu conjunto me parece uma oportunidade perdida de alavancar a qualidade e o embaratecimento dos serviços, colocando o foco na satisfação dos clientes. Isto pela simples razão que qualquer cidadão que se depare com o atendimento de uma funcionária apetecível à vista pelo que do seu corpo descobre sente mais que ela está a dar o máximo no seu local de trabalho e que é alvo de um superior atendimento ganhando desta forma uma muito melhor imagem do serviço público. De igual modo, os sutiãs escuros sob blusas claras ou de transparências certariam puxariam os cidadãos a agradecerem tal atendimento com uma bonificaçãozinha à funcionária, à laia de comissão ou de gorjeta de empregado de mesa, o que revertido para a Loja contribuiria para diminuir as despesas da mesma. Creio também que o público feminino da Loja a usaria como recurso alternativo às montras dos centros comerciais para saber como param as modas, entendendo o serviço como uma mais-valia.

Em suma, impedir o empenhamento dos funcionários na melhoria da qualidade dos serviços prestados parece-me um desperdício de recursos.

[Foto © Agent Provocateur, 2009]

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