Call me Contraceptivo*


Durante a semana, ele largava o emprego na minha hora de adormecer e já eu almoçava quando ele se purificava no duche. Aos fins de semana, caso não precisasse de ir trabalhar como voluntário à força do contrato que podia ser rescindido no final de cada mês, lá conseguíamos destinar um tempito para sacudir a pele e despojá-la das tensões e fluídos acumulados e não me pergunte, Senhor Doutor, como nos conhecemos porque, obviamente, tal milagre só foi possível por obra do desemprego.

Ele era apenas um dos milhentos help desk que ganham a vida com um telefone colado à orelha durante todo o santo dia, com horários que entram pela noite dentro e deixam uma réstia de manhã para acordar e tomar banho. O melhor que lhe podia acontecer no horário de trabalho era a colega da secretária da frente usar calças de cintura descaída que deixassem florescer a cuequinha de fio dental num rabo rotundo e firme para merecer a escapadela do olhar.

Por mais que os nossos corpos chamassem um pelo outro as nossas manobras de cama eram executadas em piloto automático de sobe, desce, insiste, insiste e acabámos por dissolver a sociedade que não se compatibilizava e fazia mesmo perigar a postura adolescente de viver sem horas e sem compromissos essencial ao mundo laboral, ficando eu convencida que na actualidade, o melhor contraceptivo são os contratos a prazo.

[Imagem © Julian Murphy, Auralsex-mobile phone]
*Texto originalmente publicado em 03.11.2005

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