Pulsão trabalhadora*


Às quatro e meia da tarde posicionava-me virada para janela, refastelada para dar de beber aos olhos. Era quando os quatro moçoilos bem apessoados desciam presos numas cordas que lhes realçavam os apetrechos nos calçonitos. Todos tinham cabelos a dourarem-lhes as pernas, à excepção de um que em vez de ucraniano talvez fosse romeno.

E naquele dia pensei que não era tarde nem cedo para um encontro de culturas e precipitei-me para fora do prédio, a aguardá-los na sua chegada ao solo. Naquelas camisolas de cavas qualquer um deles exibia músculos sem as deformações do culturismo e, assim à vista desarmada, nenhum tinha tatuagens de amor de mãe nem daquelas de arabescos coloridos.

Aprovados que estavam, acendi um cigarro e encarei-os num sorriso que se abatia por eles como as suas esponjas nas vidraças. Cochicharam entre eles e lá houve um que se decidiu a caminhar até mim, pedindo um cigarro com uma pronúncia que não escamoteava as origens. Retirei o maço da mala e estendi-lho de forma a roçar-lhe os dedos, aguardando o contacto directo dos seus olhos para acto contínuo eu pestanejar rapidamente e aflorar os lábios com a ponta de um dedo. O gajo podia não falar a língua de Camões nem tampouco a de Lobo Antunes mas também a única gramática que pretendia da sua língua e das suas fibras compreendia regras bastantes simiescas para dispensar qualquer outra coerência.


(Foto © Paulo Madeira, 2006, Hora de almoço)
* Texto originalmente publicado em 03.07.2006

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