Três olhos azuis

O José Carlos Ary dos Santos como poeta castrado que não era deixou esse facto impresso, por exemplo, num poema que dedicou a Mário Cesariny:

Em louvor e simplificação de Mário Cesariny de Vasconcelos

Por quê Mário?
Por quê Cesariny?
Por quê - ó meu Deus de Vasconcelos?
Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino
da moral dos vitelos?

Alarga Mário a larga pássara do canto
e verás que à ilharga da imagem
o deus da vadiagem

fará de ti um santo.


Meu santo minha santa

Filomena tirada dos altares

quando a alma dos outros é pequena

melhor é ir a ares.


Areja Mário a pluma que sobeja

ao teu surrealismo

antes o ar de Londres que o de Beja

antes a bruma do que o sinapismo
.

Fornica meu poeta

sem a arnica

dos padrecas da terra.

Antes em Telavive que o tal estar
aqui

de cu pró ar
a ver quem nos enterra.

A fundo Mário se quiseres
baratinar os chuis.

Nem vinho já sabemos nem mulheres

mas os colhões de teres

os três olhos azuis.



In Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Lisboa: Antígona/Frenesi, 3ª edição, 2000

[Foto © Paulo Rebelo Loriente, 2008, O]

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