Sacanas


Não é que o ar que se respira me recorde 1973 que eu era catraia e nem me lembro de nada que sempre comi muito queijo. Não é sequer que julgue que a actualidade tenha alguma ligação com o poema que longe vá o agoiro de me cair um processo em cima, por Toutatis. Foi mesmo por acaso, por uma mera coincidência e um almoço grátis que me lembrei dos clássicos, de Jorge de Sena e do seu «No País dos Sacanas»:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

10/10/1973

Absolutamente masculino


Postal erótico de 1920

cartaz publicitário do final do século XX

Alinhar ao centroFoto © J.P. Sousa, 2006

Um bolo fabuloso para a Fabulosa

para lhe desejar um feliz dia de aniversário com o Rodrigo Santoro nuzinho de prenda.







De fazer chorar as pedras da calçada


Vou contar-vos uma história de fazer chorar as pedras da calçada, uma antiga tradição alfacinha pós-campanhas eleitorais por mor das recargas betuminosas nas ruas taparem os sumidouros e as primeiras chuvas fazerem lagos sobre as pedrinhas calcárias.

Ela nem nascera feia de cara e quando começou a botar corpo entesoava qualquer homem tanto que o seu pai à força de gritos e estalos na sua mãe proibiu que ela circulasse em cuecas e sutiã pelo lar de família. Foi desde o dia em que por trás a agarrou pela cintura, encostou-se tanto às suas nádegas que ela bem lhe sentiu o abono de família avolumado e a largou com um estridente estalo na cara a mandá-la vestir que o respeito é uma coisa muito bonita.

Quando abalou daquela casa pensou que faria da sua vida o que quisesse mas o seu marido era devoto da congregação dos chefes de família e rapidamente lhe mostrou que ela estava ali para lhe servir os apetites na mesa e na cama que só podia cozinhar os pratos favoritos dele e o facto de ela nunca ter orgasmos era coisa de somenos desde que os espermatozóides nossos de cada dia se escoassem, usando os punhos como o seu melhor argumento.

A vizinha do lado é que não acreditou que as nódoas negras eram resultado fortuito de batidelas nas esquinas do mobiliário e começou a oferecer-lhe as orelhas para descarregar as lágrimas e nessa barrela até lhe massajou as carnes pisadas com um creme reconstitutivo da pele. Consolada pela vizinha foi num imenso gáudio que descobriu que o clítoris correctamente sorvido é um eficiente short cut para chegar ao orgasmo.


[Foto © bernardo coelho, 2008, Fetiche for Charity #2]

PI das ilusões urbanas

Um chocolatinho disponível para uma pausa
Alternativa Fatyly: Carago, aind viro mousse com natas e a gaja não vem!

Uma geisha nos transportes públicos

Uma loira atenta
Alternativa Fatyly: eu bem tinha razão que não era assim...agora que aguente ou faça à mão!

[Imagens de Bloguerrilla e gentilmente enviadas por Ar.Carv. e Xico L.F.]

Três de tintas e pincéis

é o título da exposição de Claire-Françoise Fressynet que hoje estará patente em diversos espaços públicos da blogoesfera para comemorar os 3 anos do seu blogue. A redacção do Chez 0.3 associa-se ao evento enviando efusivos parabéns à autora.




Manobras


Atirei-lhe com a gravata para um canto qualquer para lhe agarrar o pescoço com ambas as mãos e mordiscá-lo gulosamente em sonoras sucções enquanto ele se debatia com o casaco para o fazer sair de si e tentava acertar-me com beijos numa qualquer nesga de cara. Resolvi ajudá-lo abrindo-lhe os botões da camisa e premiando-o com um beijo por cada pedacinho de peito descoberto enquanto ele se desenvencilhava do cinto para as calças descaírem abaixo da linha do rabo e rapidamente levava uma mão ao material de trabalho para avaliar o estado de prontidão. Julgo que determinou falta de aquecimento e num frenesi puxou-me para atirar a sua língua desesperada para dentro da minha boca, levantou-me a camisola para num instante sacar os mamilos fora do sutiã e alternadamente os chupar e não satisfeito desceu a língua pela linha mediana do meu corpo até se ajoelhar na minha fonte como um petiz deliciado pelo suco dos medronhos.

Era a minha deixa para o atirar para cima da cama com a pressa de nem tirar o edredon e acocorada entre as suas pernas abertas fazer entrar em ebulição a sua cafeteira. Não me esqueci das piscadelas de olho cúmplices enquanto a media com a língua. Não me esqueci de a tragar começando pelo topo e bocadinho a bocadinho engoli-la toda. Não me esqueci de infiltrar as mãozinhas pelas suas nádegas e testículos em amassos constantes mas não havia maneira de levantar fervura.

O seu olhar sorria a meia haste como a pedir desculpa de já ter ultrapassado a barreira dos quarenta mas teve a hombridade de não pronunciar que tal nunca lhe tinha acontecido. E desta sorte me sentei de pernas abertas com os pés a tocar-lhe os sovacos , aconchegando a minha menina às suas bolinhas e de mão pronta e rápida comecei com afã a subir e a descer o seu menino, o seu corredor de fundo, enquanto repetia o mantra Força! Isto vai! Isto vai!


[Foto © Paulo Madeira, 2007, Manobras]

Soneto dos piolhos


Que fio de ouro, que cabelo ondulado
piolhos não criou, lêndeas não teve?
que raio de olhos blasonar* se atreve,
que não foi de remelas mal tratado?

Que boca se acha ou que nariz prezado
aonde monco ou escarro nunca esteve?
e de que cristal ou branca neve
não se viu seu besbelho* visitado?

Que papo de mais bela galhardia,
que um dedo está do cu só dividido,
não mijou e regra tem todos os meses?

Pois se amor é tudo merda e porcaria,
e por este monturo* andais perdido,
cago no amor e em vós trezentas vezes.

Composição anónima do séc. XVII In Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Lisboa: Antígona/Frenesi, 3ª edição, 2000


* blasonar = mostrar com alarde, ostentar;vangloriar-se, gabar-se.
* besbelho = ânus
* monturo = lixeira; monte de esterco; acervo de coisas repugnantes

[Imagem gentilmente enviada por IR]

Variações do António





Ele diz que não é nada.

Mas se lá formos correr a cortina descobrimos um corpo de ternura a palpitar nas suas inquietações . Como se atrás das soltas finúrias bem-humoradas estivesse uma montanha de sensibilidade e amor esculpida nos momentos amargos da vida que dá pelo nome de .




[Foto © rêve d'hommes]

Ajustamentos à burka



[Vídeo gentilmente sugerido por CF]

PI das minhas Burkas tristes

Burka na praia

Burka no automóvel

Burka no hospital

Burka na boneca

© Joana Vasconcelos, Burka, 2002 (Ferro pintado, tecidos, silicone, sistema eléctrico, motor, temporizador, cabos de aço, poliuretano e palco de madeira, 670 x 600 x 500 cm)

[Imagens gentilmente enviadas por AVC]

PI das minhas Burkas alegres



[Cartoons gentilmente enviados por AVC e Xico L.F.]

História de Oh*

Porque o site do Inimigo Público já está on line.



Estranhei aquele pinchavelho à laia de fósforo assim espetado na orelha, a descer lentamente pelas escadas rolantes, como se uma câmara de filmar o acompanhasse. Pareceu-me mais fauna do Atrium do que daquele lado ou a julgar pelo ar apardalado do sujeito, acabadinho de sair da matiné do Brokeback Mountain. Olhou as mesas a toda a volta e encaminhou-se para o fulano mais plácido que ali estava, com qualquer coisa de celta ou bretão, encorpadito de largura como diria o Obélix, que afincadamente lia o Público, resguardando nele a cara. Não fossem as mãos vazias a ondular ao compasso do piercing e eu diria que o que estava de pé se ia aproximar para lhe ofertar uma bonina.

Debalde que o gajo somente encostou as coxas das calças à mesa e debruçando-se sobre o outro indagou as horas. O do jornal respondeu apenas ao que lhe fora perguntado. Dada a diferença de idades tinha idealizado logo ali uma cena digna do alto do Parque mas em plena luz eléctrica. Só que aqueles marmelos, nem um ósculo de despedida, nem um sorriso cúmplice. Ora paga ali uma pessoa a sua bica e embora confortavelmente sentada, não assiste a nada que faça rolar duas ou três linhas de imaginação. Neste ínterim, suponho que devido aos meus olhos coladitos ao pescocito do que estava já com o jornal no regaço, despoletou a sua vista interrogativa na minha direcção. E se bem que exalasse uma meiguice de antigamente, cruzei uma perna sobre a outra que é coisa que não me magoa nada e subi e desci o peito num suspiro, baixando as pálpebras para o ignorar. A crueldade era a maior amabilidade que lhe podia dar.

É que sabe, Senhor Doutor, às vezes faço a caridade de ser uma boneca de porcelana para não estilhaçar os pensamentos dos outros como num atentado terrorista.


*Texto publicado originalmente em 27.03.2006

O CU-CU já tem 3


E para celebrar os três anos do CU-CU que se hoje se completam rigorosamente como a linha que separa as duas nádegas às 16:33, os Sigur Ros correm atrás da sua autora, a Gotinha, vestidos a preceito, para a encher de beijos.


[Imagem © Capa do álbum With A Buzz In Our Ears We Play Endlessly dos Sigur Ros]

Uma na mão

© Rafael, 1516, La fornarina

Postal erótico do início do século XX

© Lucien Freud, 1952, Girl with a dog

Foto © Amanda Com, 2007, Detalhe de Luxo

Diga 33 na próxima curva


O Mestre Joao, exímio geógrafo cuja especialização o faz pender para as curvas, com nível, diz hoje 33 e como já não está na moda a farinha do tempo dos nossos avós, pedi à Angelina Jolie que o parabenizasse a preceito.











[Imagem criada aqui a partir de um original de © Sourgirl, Angie]

Convença a sua sanita



de que hoje é dia das mentiras.


[Imagens daqui]

Peixe de Abril


Na França do século XVI a chegada da primavera marcava o início de cada ano e comemorava-se com uma semana de festas, para dar largas à testosterona fresquinha e naturalmente fazer o que todos os bichinhos gostam.

As festas escorriam goela abaixo e monte de vénus acima desde o dia 25 de Março até 1 de Abril, sendo este último o dia de Ano Novo. Só que depois um iluminado pela cadeira do poder que na época se chamava rei resolveu chamar pelo Gregório e este enviou-lhes o seu novo calendário, ainda sem mulheres nuas - nem excomunhão dos preservativos que só no século seguinte se iniciariam com tripa de porco - embora com a particularidade de começar o ano no dia 1 de Janeiro, uma coisa nunca antes vista.

Muitos franceses ficaram de queixo caído e não por se estarem a babar pela Jessica Alba ou pela Scarlett que estas ao tempo seriam por demais escanzeladas para excitarem os machos e porque, valha a verdade, ainda nem sonhavam ser espermatozóide ou óvulo, pelo que teimaram em seguir o calendário antigo. Mas outros, muito seguidores da moda acabadinha de ditar, fizeram disso pagode enviando-lhes presentes estranhos e convidando-os para festas inexistentes e este costume propagou-se etiquetado como Peixe de Abril, Dia das Mentiras ou Dia dos Tolos, na língua inglesa.

O hábito perdurou e numa acção de marketing pioneira o jornal pernambucano A Mentira começou a sair para rua exactamente no dia 1 de Abril de 1848 com a cacha da morte de D. Pedro que desmentiu no dia seguinte. E fazendo jus ao seu nome, na sua última edição, em 14 de Setembro de 1849, convocou os credores para uma regularização de contas no primeiro de Abril do ano seguinte.



[Calendário feito aqui a partir de imagem gentilmente enviada por JPS]

Ai que já lá vão

13 anos.

Tuíta-me e faz-me crescer

Muitas razões se podem avançar para a popularidade do Twitter e após apurados estudos junto da fauna local defendo como hipótese mais plausível o facto de, independentemente do sexo com que nascemos, lá todos podermos ter um pénis, como a imagem documenta.

Sem discriminação de género todos podemos medir pilas tanto mais que quanto mais nos tuítam mais ela cresce. E é rápida, simples e eficaz esta partilha de prazer. Há uma velocidade estonteante com que somos penetrados por informação, uma atrás da outra, num gemido contínuo de tuit tuit tuit tuit tuit, deste, do outro e daquele que nem temos tempo para pensar embrenhados naquela volúpia de sentirmos o que está a acontecer no momento.

Não será também desprezível um certo onanismo de língua já que, mais uma vez sem discriminação de sexo, todos podemos dar intensivamente à língua. Com a imensa vantagem de sem sermos geek ou possuirmos os mínimos conhecimentos de grafismo podermos dizer em público tudo que nos apetecer que ninguém nos liga nenhuma, como se falássemos alto entre as quatro paredes de uma casa de banho. Mesmo se o acaso nos levar a entabular uma conversa o máximo de 140 caracteres por frase impede que alguém tenha a veleidade de avançar mais que a canção do bandido ou de blipá-la.

E igualmente não despiciendo é o voyeurismo que permite. Que é tal e qual um programa do big brother de celebridades onde lhe podemos espreitar a intimidade que debitam em frases tão interessantes como vou almoçar, vou jantar, vou dormir, mesmo que o pudor as impeça de nos informar quando praticam sexo ou se o substituíram pela tuíta.