Ananga Ranga


Se a sua cara metade (ou barata ou de preço intermédio) passa as horas de trabalho a assediar qualquer colega que mexa ou a gastar muito as vistas no vizinho ou na vizinha, conforme a preferência, não está a precisar de um anti-vírico para a Gripe A mas de Ananga Ranga.

Para não haver equívocos, não se trata da banda lisboeta de jazz rock com o mesmo nome, mas de um manual erótico-sensual do indiano Kalyana Malla, escrito em 1172 ou em 1450, indicado na prevenção da separação de um casal, já que o autor era um acérrimo defensor da monogamia e do investimento em posições diversificadas para evitar a monotonia de anos a fio se manterem os mesmos parceiros.

O livro é também conhecido como Kama Shastra e se repararmos que a palavra Kama se refere à busca do prazer e ao Deus do Amor na mitologia indiana melhor compreendemos que enquanto o seu antecessor Kama Sutra trata de tudo ao molho e fé em deus o Kama Shastra é uma vulgata do anterior para manter a chama acesa em leitos conjugais. Em ambos se explana a divina ideia de que o prazer é um dos aspectos fundamentais para a salvação da alma.

Na impossibilidade de aqui reproduzir o livro e porque nestas matérias conta mais a prática do que a teoria, remeto para um sex-shop online também denominado Kama Shastra que fornece inspiração para a posição do dia com a pertinente indicação das calorias gastas por homens e mulheres na sua execução.





[Foto © Agent Provocateur, 2009]

Catálogo de expressões masculinas



[Vídeo gentilmente enviado por JS]

O aniversário do marinheiro-romã

Blogoesfera, 23 Mai (Chez 0.3) - O país acordou hoje com mais um painel red espalhado um pouco por todo o lado e fontes seguras garantiram-nos que não se trata de mais um candidato às Eleições Europeias.

De acordo com sondagens nos locais onde estão instalados os painéis as inquiridas foram unânimes em considerar que este pujante marinheiro-romã dá vontade de comer bago a bago qualquer que seja a pontinha por onde se comece e que se ele fosse candidato até iriam votar no dia 7 de Junho em vez de irem à praia ou ao Dolce Vita.

E este blogue está em condições de afirmar que promoveu esta campanha para dar os parabéns ao Cap por mais este aniversário. Razão que nos leva também a entregar-lhe um bolo com o seu carro de sonho.


Call me Contraceptivo*


Durante a semana, ele largava o emprego na minha hora de adormecer e já eu almoçava quando ele se purificava no duche. Aos fins de semana, caso não precisasse de ir trabalhar como voluntário à força do contrato que podia ser rescindido no final de cada mês, lá conseguíamos destinar um tempito para sacudir a pele e despojá-la das tensões e fluídos acumulados e não me pergunte, Senhor Doutor, como nos conhecemos porque, obviamente, tal milagre só foi possível por obra do desemprego.

Ele era apenas um dos milhentos help desk que ganham a vida com um telefone colado à orelha durante todo o santo dia, com horários que entram pela noite dentro e deixam uma réstia de manhã para acordar e tomar banho. O melhor que lhe podia acontecer no horário de trabalho era a colega da secretária da frente usar calças de cintura descaída que deixassem florescer a cuequinha de fio dental num rabo rotundo e firme para merecer a escapadela do olhar.

Por mais que os nossos corpos chamassem um pelo outro as nossas manobras de cama eram executadas em piloto automático de sobe, desce, insiste, insiste e acabámos por dissolver a sociedade que não se compatibilizava e fazia mesmo perigar a postura adolescente de viver sem horas e sem compromissos essencial ao mundo laboral, ficando eu convencida que na actualidade, o melhor contraceptivo são os contratos a prazo.

[Imagem © Julian Murphy, Auralsex-mobile phone]
*Texto originalmente publicado em 03.11.2005

Harmonia conjugal

Se é um homem triste por viver no século XXI em que as mulheres já não lhe obedecem cegamente e sente que perdeu metade dos privilégios que o seu pai, o seu avô e o seu bisavô detinham, obrigado que está a partilhar as tarefas domésticas e as decisões do casal com a sua cônjuge, tudo por causa da moda da igualdade de género, ainda há uma esperança para si.

O site Conjugal Harmony tem a solução: mais de quatro mil presas com quem se pode casar e que apenas o obriga à consumação do acto, que poderá repetir as vezes que lhe aprouver, apenas devendo satisfações à escolhida quando lhe apetecer e com a enorme vantagem de os seus ciúmes estarem automaticamente excluídos pela natureza da relação.

Esta é a oportunidade de recuperar o seu orgulho marialva e macho e de confortavelmente tratar as mulheres com quem se relaciona ao mesmo nível em que coloca todos os seus haveres e o seu automóvel.

Por uma liga de protecção dos espermatozóides

Guantanamo é um paraíso, comparado com uma camisinha sufocante e claustrofóbica!
São Rosas



Andam os ânimos exaltados com a defesa de diversos animais, particularmente dos touros e ninguém se preocupa com os direitos desse bichinho doméstico mas tão fundamental à espécie humana que é o espermatozóide e que na sua pequenez de tamanho não tem possibilidade alguma de se defender.

Como na epígrafe desta crónica bem expressa a São Rosas, a camisa sem colarinhos que é o preservativo e que as pessoas insistem em manter como costume é um bárbaro método de cozedura dos espermatozóides em fogo lento determinando-lhes ainda uma morte inglória. A modos que semelhante ao que se faz aos caracóis e que não se entende porque apesar do seu elevado valor calórico não servem predominantemente para comer. Sabido que o habitat natural dos espermatozóides são zonas húmidas de grutas de temperaturas aprazíveis percebe-se melhor o grau de violência que sobre eles é exercido.

E prepara-se mais um ataque de maus tratos aos espermatozóides com a distribuição gratuita de preservativos nas escolas esperando que o enorme volume de testosterona adolescente promova a chacina de mais uns milhares de espermatozóides. E não havia necessidade deste genocídio e de menorizar as raparigas já que desde a invenção da pílula elas são responsáveis pela sua sexualidade para além de com este método permitirem aos espermatozóides uma vida saudável e sem traumas físicos ou psicológicos. Acresce ainda que os preservativos cheios de espermatozóides mortos colocam a questão ecológica da sua triagem já que sobra sempre a dúvida se devem ir para o embalão ou para o vulgar lixo doméstico dado o seu teor proteico.

Mais do que mãos masculinas constantemente colocadas sobre as fábricas de espermatozóides como se fossem Quixotes a lutar contra os moinhos de vento urge criar uma Liga de Protecção dos Espermatozóides que lhes defenda os direitos e que tome como primeira medida a distribuição gratuita de pílulas nas escolas como única garantia válida de lhes dar uma vida de qualidade e de livres movimentos.




PI da sensualidade das gravatas

Não medram as galinhas onde uma gravata mora.


Uma gravata indica que para a frente é que é caminho.


Uma gravata por dia nem sabe o bem que lhe fazia.

E uma gravata do maior respeito. «Mesmo que ali esteja para as ofender.»

Energia positiva




A Galp lançou uma campanha sob o lema «Portugal está cheia de lugares vazios» apelando à partilha de lugares nas viaturas e quer parecer-me que esta excelente ideia podia ser estendida a outras áreas da vida dos portugueses.

Estou convicta que Portugal está cheio de camas vazias. Ou mais rigorosamente de camas com um lugar vago. Basta dar uma volta pelo Hi5, Twitter e Facebook para constatar a enorme quantidade de indivíduos e indivíduas que por lá circulam a apregoar que têm um lugar despovoado na cama. Às vezes o espaço até está ocupado mas não preenche integralmente e a fundo as funções que lhe foram confiadas fazendo apenas de corpo presente.

E com o estado actual de crise que ocupa as camas com insónias, olheiras e falta de apetite sexual que até se reflecte negativamente no mundo laboral já que como dizia a minha avózinha quem não é para comer não é para trabalhar, urge aproveitar a energia positiva que a partilha de lugares de cama pode gerar. A ideia é criar uma bolsa ou rede social de pessoas cujas horários coincidam para investirem na produção da energia positiva que o erotismo e o acto sexual produzem. Eventualmente, até se poderia avançar para um programa de entretenimento televisivo como um título do tipo «Partilhe a sua cama comigo» para transmitir em directo as experiências dos concorrentes, motivando assim o típico voyerismo tuga que positivamente contribuiria para os casais nacionais manterem o factor de estabilidade da sua relação bem como para fomentar a adesão de mais participantes no que constituiria um verdadeiro serviço público.

Poderiam até distribuir-se uns crachás com a frase «Partiha a tua cama comigo e pergunta-me o que é energia» ou «Na cama comigo flui a energia» para atingir até aquelas franjas da sociedade que obstinadamente não vêm televisão e assim erguer um intenso orgulho nacional: Portugal Com Tusa.

Toze lança as palavras ditas dos outros

Blogoesfera, 18 Mai (Chez 0.3) - Foi lançado hoje à meia noite o cd multimedia As palavras ditas dos outros , de Toze, ou , que compila a sua obra de declamação de poesias, sobretudo de vários nomes femininos de bloguistas, em registo áudio e vídeo, neste dia em que significativamente o autor comemora mais um aniversário.

Nesta ocasião a redacção do Chez 0.3 endereça também os parabéns ao Toze pelo seu aniversário e pela obra lançada aqui lhe deixando um bolo de confecção própria.


Três olhos azuis

O José Carlos Ary dos Santos como poeta castrado que não era deixou esse facto impresso, por exemplo, num poema que dedicou a Mário Cesariny:

Em louvor e simplificação de Mário Cesariny de Vasconcelos

Por quê Mário?
Por quê Cesariny?
Por quê - ó meu Deus de Vasconcelos?
Não sabes que um polícia de costumes é o agente interino
da moral dos vitelos?

Alarga Mário a larga pássara do canto
e verás que à ilharga da imagem
o deus da vadiagem

fará de ti um santo.


Meu santo minha santa

Filomena tirada dos altares

quando a alma dos outros é pequena

melhor é ir a ares.


Areja Mário a pluma que sobeja

ao teu surrealismo

antes o ar de Londres que o de Beja

antes a bruma do que o sinapismo
.

Fornica meu poeta

sem a arnica

dos padrecas da terra.

Antes em Telavive que o tal estar
aqui

de cu pró ar
a ver quem nos enterra.

A fundo Mário se quiseres
baratinar os chuis.

Nem vinho já sabemos nem mulheres

mas os colhões de teres

os três olhos azuis.



In Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Lisboa: Antígona/Frenesi, 3ª edição, 2000

[Foto © Paulo Rebelo Loriente, 2008, O]

PI dos penicos

Já que amanhã, 18 de Maio, se comemora o Dia Internacional dos Museus, fazemos este postal em memória desses esquecidos palácios das necessidades prementes.

1. penico chinês da dinastia Qianlong; 1736 - 1795
2. penico inglês de porcelana Cardigan; cerca de 1850
3. penico inglês de porcelana Portland; 1866
4. penico português com tampa da Vista Alegre; 1922-1947

5. penico português com tampa da Vista Alegre
6. penico português de faiança
7. penico de zinco esmaltado


Sem medo de engripar

Não fique com a mosca




[vídeo gentilmente enviado por JL]

As Vénus não se medem aos palmos

Foi descoberta uma nova representação feminina, designada como Vénus de Hohle Fels, com 35 mil anos que assim vem destronar a Vénus de Willendorf que conta com uns meros 28 mil anos. E não obstante os seus 33 gramas e menos de 6 cm de altura que a tornariam adequada para porta-chaves caso os homens do Paleolítco já usassem apartamentos em condomínio fechado ou automóveis e quisessem exibir esse estatuto nos dedos, esta Vénus possui características sexuais ainda mais exageradas que a anterior recordista, dadas as mamas bastante mais volumosas e os traços da genitália marcadamente mais vincados e fundos.

O Público que na sua edição impressa de ontem noticiou o acontecimento até legendou a fotografia com a afirmação de que «A Vénus de Hohle Fels, de frente e de perfil, tem ainda muito para dizer». Desta forma, supomos que estará para breve a divulgação de um dvd exclusivo da última entrevista da Vénus de Hohle Fels em vida, e em diversas posições, para certamente explicar as maravilhas da cirurgia plástica pré-histórica que lhe permitiram ter umas mamas tão fenomenais como as implantadas de acordo com os cânones da moda do século XXI e quiçá, também sobre as técnicas de aumento da extensão da profundidade vaginal. Caso isso aconteça será uma marcante revelação histórica que destituirá em definitivo as velhas teorias que pretendem que estas Vénus são meras representações mágico-religiosas da fertilidade de comunidades dependentes dos caprichos da natureza e confirmará em definitivo a prática da cirurgia estética desde tempos imemoriais para gáudio dos machos, tanto que até já comportava uma redução do perímetro craniano das fêmeas.

PI de Maio, mês das flores


© Ferrom, Flor de Vida, via Fabulosa

A verdade está na moda

A Cerveja Tagus já tinha aberto o caminho com «Puro Malte. Cerveja de Verdade.» mas é inegável que a verdade voltou a estar na moda. E é todo um novo olhar que se lança aos exibicionistas já que mostrar o nosso corpo em estado puro é apenas partilhar a nossa verdade.




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[Façam de conta que esta imagem gentilmente enviada por Xico L.F. é a estátua do Cristo-Rei que no próximo dia 17 comemora 50 anos de erecção]

O avião

(ao GandraTruck cujo glossário me inspirou)


Aquele gajo era um avião e nem o digo pelo seu particular apreço em me segurar as nádegas para eu rodar 45 graus ora para a esquerda ora para a direita presa na pontinha da sua manche. Era mesmo porque era um gajo de fazer parar o trânsito com o seu metro e oitenta, passo certo e estugado a evidenciar a musculatura traseira e capaz de levar às nuvens qualquer assistente de bordo nas rotinas de voo.

Desde logo a visão do seu teco teco de largo diâmetro era uma promessa de viagem de encher as medidas da cliente mais afoita e recordo sempre como me borregava em deliciosas simulações de aterragem à minha pista que a transformavam numa autêntica lagoa de amaragem. E o gozo que me dava perceber a necessidade de um peregrinar constante dos meus dedos pelas suas asas para o manter no ar.

E porém a chave para preferir a sua companhia era que terminada cada travessia no descanso de umas baforadas poucos minutos bastavam para como numa diversão de feira se regressar para mais uma voltinha, mais uma viagem.

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Glossário corrigido por Lili e
Manche = acelerador
Teco Teco = aviãozinho
Borrego = tentativa de aterragem em que o piloto resolve abortá-la subindo novamente


[Imagem gentilmente enviada por JS]

Um ano de F-Grafias

Foto © Cap, 2008, Femme au vin

Hoje é o 1º aniversário do F-Grafias, um «Fblogue de capturas». Mas ao contrário do que o nome até pode sugerir nada tem a ver com a erótica letra F ou quejandas. Posso garantir que corri o blogue de alto a baixo e nem há lá uma única maminha para amostra. Dei de caras foi com embriagantes fotografias de bom enquadramento e rigoroso controlo de luz com títulos que inúmeras vezes são jogos de palavras.

E com tanta mestria de língua e beleza a penetrar-nos os olhos só posso dar muitos parabéns ao cap.

Foto © Cap, 2008, Delta

Santas senhoras

Foto © José Ferreira, 2008, cruznine in the afternoon


Foto © BlueNoses, 2004, Daily Bread

Santa voz


Porque a voz santa de Antony (& the Johnsons), capaz de nos enlevar em êxtases místicos vai ecoar na próxima 5ª no Coliseu de Lisboa, no sábado no Theatro Circo de Braga e na 2ª no Coliseu do Porto.

Orelhas quentes


Àquela hora da manhã não sei que raio de impulso de nossa senhora dos aflitos me deu para largar a bica e me levantar a interpor-me entre o murro certeiro do grandalhão e a cara dele. Talvez a quase certeza de que os homens não batem a uma mulher a não ser no recato doméstico sem audiências mas adiante.

Ele agradeceu-me polidamente com um novo café e fiz das tripas coração para não lhe berrar que a mim gajo nenhum paga coisa alguma. E ele lá foi abrindo as suas asas de deputado desterrado para a capital e circundado de gente por todos os lados, com propostas de acção, de negócio e de troca de favores a abarrotar-lhe os dias. Nem lhe faltava sexo mesmo que depois lhe pedissem um emprego melhor para si ou alguém da família ou um jeitinho para despachar uma licença na câmara daquele gajo que ele até conhecia. Tanto mais que choviam gajas a colarem-se com o corpinho todo pelo prazer de depois passearem o seu estatuto pelo braço. Às vezes até gastava umas notas valentes com meninas de preço tabelado só para escolher à sua maneira o que pagava.

Recolhi os instintos de o despir e de lhe apaziguar as mágoas com muita transpiração numa confusão de sexos na boca e mãos cravadas em nádegas e até da magia de fazer crescer uma pila dentro de mim em toques sincronizados e espasmódicos de vagina porque ele não precisava de uma foda mas de um par de orelhas amorosas que lhe espantasse a solidão dos dias.


[Imagens gentilmente enviadas por Xico L.F. e um agradecimento especial ao Camilo]

Corpo insurrecto

Porque Luiza faria hoje 70 anos.



O corpo insurrecto

Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

Luiza Neto Jorge, Terra Imóvel, Lisboa : Assírio & Alvim, 2001 (2ª edição)


[Imagens gentilmente enviadas por JJ]

Ray Charles

Um poema de Jorge de Sena a Ray Charles, numa gentil oferta da Lili.


Cego e negro, quem mais americano?
Com drogas, mulheres e pederastas,
a esposa e os filhos, rouco e gutural,
canta em grasnidos suaves pelo mundo
a doce escravidão do dólar e da vida.

Na voz, há sangue de presidentes assassinados,
as bofetadas e o chicote, os desembarques
de «marines» na China ou no Caribe, a Aliança
para o Progresso da Coreia e do Viet-Nam,
e o plasma sanguíneo com etiquetas de blak e white
por causa das confusões.
E há as Filhas da Liberdade, todas virgens e córneas,
de lunetas. E o assalto ao México e às Filipinas,
e a mística do povo eleito por Jeová e por Calvino
para instituir o Fundo Monetário dos brancos e dos louros,
a cadeira eléctrica, e a câmara de gás. Será que ele sabe?

Os corais melosos e castrados titirilam contracantos
ao canto que ele canta em sábias agonias
aprendidas pelos avós ao peso do algodão.
É cego como todos os que cegaram nas notícias da United Press,
nos programas de televisão, nos filmes de Holywood,
nos discursos dos políticos cheirando a Aqua Velva e a petróleo,
nos relatórios das comissões parlamentares de inquérito,
e da CIA, do FBI, ou da polícia de Dallas.
E é negro por fora como isso por dentro.

Cego e negro, uivando ricamente
(enquanto as cidades ardem e os «snipers» crepitam)
sob a chuva de dólares e drogas
as dores da vida ao som da bateria,
quem mais americano?

Jorge de Sena – 1964


[Imagem criada em PhotoFunia]

De manhã é que se começa o dia




[Vídeo gentilmente enviado por EP]

Jolie sagher

Blogoesfera, 9 Mai (Chez 0.3) - Desde a meia-noite de hoje que um estranho fenómeno assola todas as televisões generalistas e os canais por cabo portugueses que exibem apenas em sessões contínuas a imagem de um indivíduo do sexo masculino.

Pelo que foi possível apurar até ao momento o dito sujeito chama-se sagher e tem um blogue com um título francês, o avec le temps. Leo Ferré escusou-se a fazer comentários por falha de rede mas aguardamos às 20 horas as reacções dos cabeças de lista portugueses às eleições europeias, à excepção de Laurinda Alves que já se mostrou indisponível para prestar declarações por razões de agenda.


Contudo, fontes fidedignas garantiram-nos que se trata apenas do cumprimento de um desejo de Angelie Jolie, pago em cash a todas as televisões nacionais para publicamente parabenizar sagher no dia do seu aniversário, facto que de acordo com outras fontes geralmente bem informadas garantem se dever ao facto de o dito estar na origem do anunciado divórcio da actriz.





Fotos: Chez 0.3/PhotoFunia

Corpo ou não, eis a questão*


O Senhor Doutor acha que eu me refiro aos homens de forma pouco corpórea?... Ah, com excepção do instrumento!... Pois, Senhor Doutor, se calhar tem razão!... Ora deixe cá ver... pois, com excepção do 11, do 17 e claro, do 33 nada mais há a recordar. Chega saber que existiram na história da minha vida e que tinham instrumento, ou melhor, que tocava.

Sabe, Senhor Doutor, uma coisa é olhá-los num café, num restaurante, num qualquer sítio público que sempre dá para lavar as vistas. Mas de resto, os homens servem para dar uma voltinha e depois são perfeitamente descartáveis. Que corpo hão-de ter uns seres que concentram a maioria das suas energias em içar a sua ponte levadiça para chegarem ao buraco mais próximo e vomitarem, não me diz?... Raramente têm braços para envolver que mais vale a toalha do banho. Raramente têm língua para nos saborear que melhor serviço faz um chuveiro bem direccionado. Raramente têm pernas para nos abraçar que até mais vale comprar meia dúzia de gatos para dormirem connosco na cama. E mesmo o tronco, às vezes é tão cara de pau que até aqueles substitutos a pilhas são bem mais eficientes.

Sabe, Senhor Doutor, creio que lhes falta imaginação o que me coloca a dúvida se existem do pescoço para cima.

[Imagem gentilmente enviada por NC]
* Texto originalmente publicado em 08.01.2004

Come a papa Joana, come a papa

Foto © Insomnia, 2007

Foto © José Ferreira, 2008, boquinha doce

Foto © Ricardo Silva, 2008, Capuxinho Vermelho

A repetição da ideia não dispensa o cumprimento da lei

Filme de animação


A anterior inquilina atafulhara-lhe as gavetas de pijamas com ursinhos, peixinhos, porquinhos e resmas de boxers com a mesma laia de bonequinhos, quiçá para atenuar as badaladas do seu relógio biológico enquanto dava mama ao seu menino.

Para o efeito não era nada que não se ultrapassasse com uma despidela rápida mas começava a ser complicado conter as gargalhadas quando lhe abria as calças e ficava com os ditos desenhos fofinhos à altura dos olhos. Piorava quando ele decidia vestir um pijama e eu perguntava se era para brincarmos aos papás e às mamãs e me desatava a rir durante longos minutos que depois era custoso içar-lhe o brinquedo até ficar à altura de ser o meu escorrega. Só mesmo com muita precisão de mãos a garrotear a cobrinha e a encantá-la com aquela música repetitiva do slershpp slershpp da língua húmida a deslizar até o seu amuo me bolsar na boca.

Por isso resolvi contra-atacar com docinha roupa íntima da Hello Kitty em tons cor-de-rosinha e preto. As cuecas com dois dedos de altura mas sem costuras para não deixar marcas na pele. E o topezinho também de algodão a roçar constantemente as mamas soltas para se notarem mais os bicos. E assim me virei para ele a informá-lo que aderira à sua moda e doravante, como nos desenhos animados, onde é sabido ninguém morre, seria sempre a abrir com muitas rotações por minuto que o filme não pode parar.

[Foto © Me and Isis]

Malditas cuecas



[Vídeo gentilmente enviado por JJ]

PI da caseirada contra a Gripe A


[Imagens do mexicano elcerebro]

Gripe Classe A

Quando sentimos arrepios na espinha e um peso que nos derruba, pode ser gripe. Mas tem todo outro charme se fôr uma marcante Gripe da Classe A.


Koniec



Vasco Granja 1925 - 2009

Da importância dos mamilos

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O segundo número da Playboy já está nas bancas ostentando finalmente na capa uma gaja toda nua e destacando a cor apetecível da sua carne com um fundo claro. Mas insiste em tapar os mamilos com cabelos e interrogo-me se é erótico imaginar varrê-los com obstinados golpes de língua ou se é indecente expôr à luz do dia o resquício de que os homens descendem das mulheres.

Bem sei que se olharmos para o call-center da Ferreira Leite tudo nos parece indicar o sentido contrário mas lá porque a indumentária da mulher não sugere qualquer caminho para eles não quer dizer que não os tenha, tanto mais que está ali feita nossa senhora a pedir donativos para o seu menino. Lembro que antigamente era Nossa Senhora da Conceição que apadrinhava o dia da Mãe e que o mamilo é ícone maior deste dia.

Faço ainda notar que a cor mais pronunciada do mamilo é como a luzinha vermelha no painel de comandos de um automóvel a alertar-nos para intervir rapidamente e quem quer que já tenha ido para a cama com mulheres sabe que quanto mais espetados e escuros estiverem os mamilos mais sinalizam a disponibilidade para a acção que eventualmente produz crianças. E já que o verão e as t-shirts molhadas se aproximam, apelo à demonstração viva de mamilos ao alto, incluindo os homens que pessoalmente me apraz tanto debicar, como valor seguro na continuidade da comemoração do dia da Mãe.



[Foto © Baly, 2007, Patrícia Loureiro]

Bechkam vem dar os parabéns a Mad


Blogoesfera, 4 Mai (Chez 0.3) - David Beckham chegou hoje directamente de Londres para pessoalmente exibir na carne a sua dedicação a Madalena, do Aliciante e das crónicas da PNETMulher, no dia do aniversário desta jornalista.

A redacção do Chez 0.3 endereça também os parabéns à Madalena com um singelo bolo confeccionado especialmente para o efeito pela conceituada casa Luiz da Rocha .




[Imagens: concebida em PhotoFunia a partir de original de João Espinho; gentilmente enviada por Xico L.F. acrescida de uma implantação de Luiz da Rocha]

I'm a sailor!


Estava eu entretidíssima na minha gestão de objectivos a preparar as conversas de segunda feira com o visionamento dos briosos jogos desta jornada tuga que para o corte e costura basta improvisar no momento um vinco na roupa de quem vá a passar que rola logo a maledicência como bola de neve até se chegar à pontinha da unha esfacelada quando dei conta que a Naná , do Hello Sailor, me atribuiu o seu prémio semanal cujo selo é a imagem deste post.

Ia caindo de quatro o que é sabido é propício a esfoladelas nos joelhos e tanto mais que percebi ser a primeira possuidora de tal distinção pelo que só posso agradecer ternamente à Naná que além de ser boa rapariga escreve bem que se desunha.

E com vossa licença quero ainda nesta hora deixar o meu obrigada ao meu pai e à minha mãe e particularmente, à Aspirina e ao Melhoral, pela participação activa que nove meses antes do dia do meu nascimento, mais coisa menos coisa, permitiram que hoje este momento fosse possível.

Amor ad libitum

AMOR

Amor, amor, amor, como não amam
os que de amor o amor de amar não sabem
como não amam se de amor não pensam
os que amar o amor de amar não gozam.
Amor, amor, nenhum amor, nenhum
em vez do sempre amar que o gesto prende
o olhar ao corpo que perpassa amante

e não será de amor se outro não for
que novamente passe como amor que é novo.
Não se ama o que se tem nem se deseja

o que não temos nesse amor que amamos
mas só amamos quando amamos no acto
em que de amor o amor de amar se cumpre.
Amor, amor, nem antes, nem depois,

amor que não possui, amor que não se dá,
amor que dura apenas sem palavras tudo

o que no sexo é o sexo só por si amado.
Amor de amor de amar de amor tranquilamente

o oleoso repetir das carnes que se roçam

até ao instante em que paradas tremem
de ansioso terminar o amor que recomeça.

Amor, amor, amor, como não amam
os que de amar o amor de amar não amam.

Jorge de Sena, in Peregrinatio ad loca infecta, Portugália, Lisboa, 1969 (poema de 1965)

Teletrabalho para que te quero



[vídeo gentilmente enviado por Xico L.F.]

O meu momento com João Espinho

(com um enorme obrigada ao João Espinho pelo convite)


Os telhados abrigam-nos das intempéries. Transmitem-nos a segurança de que o céu não nos vai cair em cima da cabeça, como o temiam os gauleses. E porém, é nos momentos em que abandonamos a protecção do telhado e saímos para a rua indefesos perante qualquer condição climática que descobrimos o esplendor do arco-íris. Até guardamos mais vivos na memória esses momentos únicos e mágicos. Tal como acontece com os que a objectiva do João Espinho fixa.

PI do 1º de Maio

A crise

e o prazer do trabalho

Pulsão trabalhadora*


Às quatro e meia da tarde posicionava-me virada para janela, refastelada para dar de beber aos olhos. Era quando os quatro moçoilos bem apessoados desciam presos numas cordas que lhes realçavam os apetrechos nos calçonitos. Todos tinham cabelos a dourarem-lhes as pernas, à excepção de um que em vez de ucraniano talvez fosse romeno.

E naquele dia pensei que não era tarde nem cedo para um encontro de culturas e precipitei-me para fora do prédio, a aguardá-los na sua chegada ao solo. Naquelas camisolas de cavas qualquer um deles exibia músculos sem as deformações do culturismo e, assim à vista desarmada, nenhum tinha tatuagens de amor de mãe nem daquelas de arabescos coloridos.

Aprovados que estavam, acendi um cigarro e encarei-os num sorriso que se abatia por eles como as suas esponjas nas vidraças. Cochicharam entre eles e lá houve um que se decidiu a caminhar até mim, pedindo um cigarro com uma pronúncia que não escamoteava as origens. Retirei o maço da mala e estendi-lho de forma a roçar-lhe os dedos, aguardando o contacto directo dos seus olhos para acto contínuo eu pestanejar rapidamente e aflorar os lábios com a ponta de um dedo. O gajo podia não falar a língua de Camões nem tampouco a de Lobo Antunes mas também a única gramática que pretendia da sua língua e das suas fibras compreendia regras bastantes simiescas para dispensar qualquer outra coerência.


(Foto © Paulo Madeira, 2006, Hora de almoço)
* Texto originalmente publicado em 03.07.2006