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Posicionamento estratégico


É da sabedoria tradicional que gajo que é gajo nunca pergunta o caminho nem que tenha de dar vinte voltas ao quarteirão ou gastar quilómetros e quilómetros até dar com a coisa que parece que o genoma masculino vem com a vergonha de dar à língua programada.

É também por isso que salvo aquelas horas em que vão curar os achaques nervosos a gastar gasolina sem destino, os homens circulam de automóvel na maioria das vezes com co-pilota, preferencialmente de saias que distracção de pernas ainda não é punível pelo Código da Estrada e com a vantagem evidente de ser ela a deslindar os mapas e a baixar o vidrinho do seu lado para inquirir transeuntes em caso de necessidade.

E em mais este caso de exploração da mulher tenho de lembrar a preciosa colaboração que as empresas fabricantes de GPS deram na orientação dos homens desde que passaram a disponibilizar estes equipamentos em diversos modelos e tamanhos de ecrã , libertando assim a mulher para actividades que considere mais produtivas. Tenho ainda de salientar o rigor que algumas delas colocaram na produção destes sistemas, nomeadamente para evitar uma potencial rejeição dos mesmos por falta de hábito, quando gravaram todas as indicações numa voz feminina.


[Foto © Alexandre Serra, 2006, Editorial Site AS]

Os alcatruzes da nora

Os alcatruzes da nora
Andam sempre a dar e dar.
É para dentro e pr'a fora
E não sabem acabar
Fernando Pessoa


Foi engraçado encontrá-lo. Mais magro que a rodagem a uma nova gaja sempre ajuda a repor a linha juvenil. Encaminhava-se para o mesmo destino que eu e até fez questão de retirar os auscultadores dos ouvidos para conversarmos durante o caminho.

Sozinha sinto a alegria de fazer o que me dá na real gana sem os ruídos incessantes das discussões sobre quem não fez o quê, da cobrança na distribuição de atenção por ele e toda a outra gente que eu conhecia e do eco dos meus pensamentos a bater nos auscultadores dele. Ele comentou o folclore do futebol a encher as televisões e até esperou para ouvir a minha opinião.

Não quero ser a tua queca nem a tua mamã e o melhor é dividirmos tudo a meias e está o caso arrumado foi o meu Ipiranga que jóias da coroa há muitas. Ele despediu-se com dois beijinhos bem carimbados e o convite para almoçarmos juntos emoldurado num sorriso olhos nos olhos e uma mãozinha pousada no meu ombro que me fez escangalhar a rir e dizer-lhe que como queijo mas não sou a próxima.



[Foto © Emanuel Oliveira, 2008, Killing me Softly]

Por outro lado

Fotos © Kevin Thom

Lembro-me Senhor Doutor que o primeiro medo que tive foi que ele deixasse de desejar o meu corpo, de me tocar, já que eu própria me imaginava disforme e horrenda, com uma barrigona monstruosa que o afastaria de mim, ao contrário de todas as histórias que enaltecem as maravilhas da maternidade.

Buliam-me na cabeça as conversas ouvidas sobre aqueles que se amendrontavam com a eventual possibilidade de magoar o feto, não fosse a redoma de músculos e líquidos quebrar ou quiçá, o membro eréctil tocar, por artes mágicas, qualquer pedacinho da futura criancinha. Ou os casos de outros que amuavam por se sentirem trocados e que me perdoe o Pessoa, já não serem o menino de sua mãe.

Em razões de sobrevivência mais básica, inquietava-me também a posição de dormir já que nunca antes conseguira adormecer sem estar de barriga para baixo, espalmada contra o colchão.

E qual não foi o meu espanto ao descobrir no segundo trimestre que tinha de trocar os soutiens por outros, dois números acima e que essa nova conjuntura era um bónus sem recurso a cremes ou silicones que o entusiasmava de orelha a orelha. Por outro lado, tal como me habituei a dormir de lado, essa passou a ser posição do menu dos favoritos, pela envolvência de me sentir completamente abraçada pelos seus braços e pernas, com a vantagem adicional de a ele permitir, nesses tempos, ter nas mãos os seios dos seus sonhos e a mim, facilitar alguns movimentos sem sentir em demasia o peso da pança. Para além das alegrias breves, inauditamente, se multiplicarem. Afinal Senhor Doutor, os primeiros humanos também não se olhavam nos olhos nessas alturas e a espécie sobreviveu, não é?...

Mas o mais divertido, como o ramalhete rubro do Cesário, foi levá-lo para o bloco de partos. Como motivação fundamental disse-lhe que a oxitocina que nos dão naqueles frasquinhos para meter nariz adentro, para potenciar mais contracções e maior rapidez na expulsão do bébé, podia ser naturalmente trocada por caricías nos mamilos.

Mapa da vagina

(título descaradamente roubado ao Sharkinho, face a uma sugestão da Zu)


Não sei se a culpa não foi do sofá, Senhor Doutor! Eu apenas o ouvi a desfiar os seus problemas no sofá fronteiro, ao ritmo de cervejas mornas e cruzei e descruzei as pernas vezes sem conta, dando-lhe alento em palavras feitas tremoços.

E ele, Senhor Doutor, vem direito a mim e desaba a beijar-me o pescoço, a deixar escorregar as mãos pelo meu peito e pelos intervalos das minhas calças. Perante o meu espanto mudo abriu-me o fecho e resvalou a sua mão direita do monte para o interior dos lábios até o seu indicador chocar com as minhas nádegas. Ergueu o queixo para me indagar com os olhos se tinha aval para continuar, sinal a que retorqui com um longo beijo de línguas. E vai daí, ele afundou-se em espirais no meu botão de sintonia, pulou dos grandes para os pequenos como linha de cerzir, enquanto as minhas mãos o despenteavam atabalhoadamente. Aprimorou-se a passear a língua monte acima, monte abaixo, com o rigor de uma toalhita enquanto a sua mão esquerda me espremia as nádegas para o indicador e médio direitos se enfileirarem vulva adentro. Voltou para tragar o meu clitóris, em pedacinhos pequenos e tanto petiscou que me contorci, abraçando-o com os meus joelhos na sua nuca. Peguei-lhe a cabeça com ambas as mãos e debruei-lhe os lábios e o céu da boca com beijos.

Foi aí, Senhor Doutor, que ele me agradeceu e eu ainda zonza, não o entendi. Apenas lhe dei a minha atenção. Oh Senhor Doutor, há necessidade de pagar a amizade?...

O Fotógrafo (2004-05-19)

Olhe Senhor Doutor, conhecemo-nos na net, num site de fotografia. Conversa puxa conversa, email para cá, email para lá e foi inevitável acabarmos a analisar a profundidade de campo das nossas camas. Aliás, em termos sexuais tudo corria bem e até o sabor da sua língua a vinho, ou uísque, ou cerveja era um fotograma que me excitava. Era mais comum encontrar cerveja no frigorífico que um bife.

Era comum ficarmos deitados na cama com o Sexy Hot’s a encher o televisor toda a noite para dar ao negativo a quantidade certa de luz. Nos dias em que ele estava muito cansado eu aplicava o polarizador de o deitar e absorvia-o todo na solene volúpia de beber a emulsão após o que ele me brindava com a sua língua transformada em papel fotográfico de pin-hole, ou então, digamos que, com tecnologia digital.

O lado Kodachrome da nossa relação também se espelhava no facto de espreitarmos os nossos vizinhos a uma distância focal segura. Usámos o filtro colorido da sua irmã para criarmos uma perspectiva mais ampla que a monotonia do enrolanço a dois. Nas bombas de gasolina, enquanto eu enchia o depósito ou calibrava os pneus, ele procurava aberturas de diafragama correctas para saias primaveris.

A bodega foi que o meu código DX não me permitiu ler os seus gostos por bondage e na sua primeira tentiva de me atar com corda natural levantei o joelho à altura dos seus ossos íliacos e danifiquei-lhe temporariamente o fotómetro.

Intimidade (2004-01-17)


Sabe Senhor Doutor, era maravilhoso estar com ele. Víamos um filme do Almodovar e comentávamos cada plano, cada cena, cada peça do cenário. Líamos um livro do Saramago e analisávamos a importância de cada personagem no desenrolar da narrativa. Ouvíamos um CD do Caetano e falávamos horas a fio sobre os géneros musicais que ele abarcava e integrava no som próprio que produzia. Comíamos cachorros quentes entremeados de beijos e pintalgávamos caras, orelhas, pescoços e cabelos de manteiga e mostarda.

Nem me ralava nada que ele não resistisse a uns glúteos expressivos numas calças justas ou a um par amplo de seios saltitantes num decote-travessa. Já sabia que nessa altura os miolos lhe desciam ao sexo e só recuperava quando saíam liquefeitos em leite condensado. Verdade, verdadinha, Senhor Doutor, eu até me sentia bem naquela posição de porto de abrigo, de casa da floresta onde podemos sempre voltar para repousar.

O balde de água fria na minha paixão foi só quando descobri que uma outra lhe tinha espremido uma borbulha. Sim Senhor Doutor, porque a borbulha estava num local das costas onde ele não chegava com as mãos. E isso, Senhor Doutor, isso sim é intimidade!

O informático (2004-01-05)


Como já lhe disse, Senhor Doutor, a minha vida dava para mais 10 filmes do Manoel de Oliveira. Sabe que a páginas tantas conheci um homem das informáticas, daqueles que vestem sempre calças de ganga e camisolas práticas como emblema da profissão e deixam crescer a barba para poderem dedicar mais tempo aos seus computadorzinhos.

Era uma simpatia de pessoa. Até me chamava carinhosamente o seu portátilzinho, enfatizando a diferença do seu metro e noventa para o meu metro e meio. E que não haja dúvidas, eu era mesmo portátil ao seu colo. Sempre que precisava de lhe falar bastava enviar-lhe um sms a dizer F1 para me responder à chamada que eu calorosamente atendia com a frase «Helpdick, please».Viajámos imenso juntos; vimos o Museu do Louvre, lugares paradisíacos do Brasil e assistimos a imensas apresentações de filmes, comodamente sentados frente ao ecrã flat de 19 polegadas do seu computador.

E depois, Senhor Doutor, o homem era danado para jogar, digamos que de forma proporcional ao tamanho do seu joystick. Sempre que terminava o jogo até dizia «Acho que o sistema crashou. Segundo a minha intuição profissional, o melhor é sair e voltar a entrar». E tudo decorria funcionalmente até descobrir que o homem não podia ver uma drive que não metesse logo a disquete. O homem era multitasking. Sentei-me ao computador para ouvir «Banapple Gas» do Cat Stevens esperando que o gás me intoxicasse ou que o Corão me iluminasse.